Dying Days
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Discos do mês - Dezembro de 2012

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Dezembro de 2012

Tom Waits - Swordfishtrombones

Sempre achei que a música do Tom Waits combina bem com essa época de fim-de-ano e toda sua atmosfera convulsiva feita de ócio, cerimônias, árvores de natal, refeições fartas, pessoas aumentando suas dívidas e a miséria humana geral --- normalmente visível além da janela --- temporariamente mantida fora do noticiário e das conversas (o que só a torna ainda mais pesarosa para aqueles antiquados que não conseguem ignorá-la, nem mesmo nessa época). Época de histérico deleite infantil e resguardado cinismo adulto; de exarcebação de alegrias genuínas ou fingidas e de tristezas veladas ou rejeitadas. E o Tom Waits na vitrola harmoniza ainda mais perfeitamente com todo esse louco período de ilusão-com-hora-para-acabar coletiva quando se está no hemisfério norte, onde tudo isso vem acompanhado de bastante frio e muitas doses das bebidas alcoólicas que ajudam a esquentar (não só a esquentar, claro). Lembro que no fim de 2011 eu coloquei uma do Tom Waits numa das últimas mixtapes do ano; no ano que acabou de passar eu não repeti o gesto, mas ouvi muito o Swordfishtrombones, que é o meu preferido dele e o antídoto perfeito para que a tirania da felicidade, especialmente ativa nessa época, não nos aborreça demais. Não faço idéia de onde estarei no fim do ano de 2013, mas é bem provável que Tom Waits continue sendo minha trilha-sonora.

Sonic Youth - Smart Bar: Chicago 1985

Em tese, de um disco ao vivo lançado oficialmente, espera-se uma qualidade de gravação cristalina; um som limpo, completo e fiel que proporcione ao ouvinte a maior sensação possível de estar testemunhando in loco o show ali gravado, certo? Este Smart Bar: Chicago 1985, lançado pelo Sonic Youth no ano passado através do seu selo Goofin' Records, não é fidedigno nesse aspecto técnico em particular, mas o disco funciona maravilhosamente bem mesmo assim. O som um pouco abafado é compatível com a música que o grupo gravava em estúdio no meio da década de 80, período em que acontecia a transição dos primeiros discos mais obscuros, furiosos e barulhentos para aqueles ainda barulhentos mas um pouco mais requintados --- a música que dentro de mais alguns anos elevaria o Sonic Youth ao degrau mais alto possível (para uma banda que não faz concessões). Outras limitações funcionam também para a identificação do ambiente em que o show aconteceu: lugar pequeno, pessoas comprando cerveja, público bem próximo do palco, e a precariedade geral que provavelmente impossibilitaria de qualquer jeito uma gravação perfeita. E, claro, a música --- a inconfundível mistura de melodia, tensão e caos que a banda já fazia de forma incomparável em 1985 --- prevalece e soa magnífica, fazendo deste o melhor disco ao vivo que ouço em muitos, muitos anos.

Beatles - Let It Be

E tem o Let It Be, um dos discos mais emblemáticos da história no que diz respeito a todos esses assuntos sobre gravação e produção. O último disco dos Beatles --- ou penúltimo, se formos priorizar o fato de que ele foi gravado antes do Abbey Road, apesar de ter sido lançado depois --- é o meu preferido do Fab Four, com algumas léguas de distância para o meu segundo preferido (o branco). Seu tumultuado processo de concepção e gravação ocorreu quando a banda já vinha desmantelando-se, e mesmo a etapa posterior à gravação, de mixagem e lançamento, foi complicada: a banda vetou algumas versões do álbum, alterou a ordem do tracklist, criou novas mixagens, e foi adiando o lançamento por conta de todos esses imbróglios, até que finalmente o disco saiu em maio de 1970, quando o grupo oficialmente já não existia mais. E daí que as opiniões sobre o Let It Be --- que inclusive mudou de nome; originalmente, ele se chamava Get Back --- são bem variadas, em especial sobre o trabalho do produtor Phil Spector, cujas camadas sonoras de pós-produção que aparecem em algumas das músicas costumam ser o motivo da maioria das opiniões negativas. Mas o negócio é que eu ouço o Let It Be original, ouço essa versão mais recente chamada Let It Be... Naked (uma versão de produção mais simplificada, sem os salamaleques do Phil Spector), ouço alguns bootlegs da série Get Back, e para mim todos são igualmente fabulosos --- a força e a beleza daquelas composições é tal que bastaria os quatro beatles cantando e batucando com as mãos sobre os joelhos para termos um disco magistral. The Long And Winding Road, por exemplo, é o tipo de música transcendente que, no final da audição, eu nem lembro se tinha ou não uma orquestração por trás da voz do Paul.

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