Dying Days
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Discos do mês - Agosto de 2013

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Agosto de 2013

Gil Scott-Heron: Winter in America

É bem compreensível que brilhe imediatamente em nossas mentes as palavras The Revolution Will Not Be Televised sempre que alguém menciona o nome Gil Scott-Heron. Também pudera: além de uma ótima música, seu título é uma catch-phrase prontinha para ser apropriada por praticamente qualquer um nesses tempos onde somos todos ativistas. É verdade que a mídia nomeada pela canção vem progressivamente perdendo espaço para uma outra que em teoria poderia ser bem mais independente e menos alienante, entretanto, o que tenho observado é que nessa nova mídia as mentes das multidões parecem convergir em crescente maioria para algumas poucas corporações, portais, redes sociais etc, ambientes onde são corriqueiros a colaboração de seus donos com governos e demais poderes, o uso de dados pessoais para fins comerciais (tendo sido esse item continuamente negado por CEOs e outros cretinos por bastante tempo, só para ser logo na sequência confessado como verdade, ou seja, eles mentem descaradamente), a censura, o narcisismo --- enfim, um contexto do qual não consigo imaginar que, a médio-prazo, prospere algo muito melhor do que a televisão, de modo que continuaremos sem notícias da revolução. Ou seja, muda-se apenas uma palavrinha ali no título da música e é capaz de ela permanecer bem atual --- o que não deixa de ser também meio paradoxal, pois é através dessa nova mídia de massa, onde pelo menos ainda é permitido que todos (ou quase todos) se manifestem, é justo através dela que mais devem ecoar as palavras de Gil apregoando a independência de nossas mentes (assim como as de tantos outros: Bob Marley, poetas etc). E assim mesmo inacabada eu deixo essa análise pois sequer sei se o escrito acima é justo, pode ser só má-vontade minha; acrescento apenas que, no que diz respeito às pessoas que venham a ter um primeiro contato com Gil Scott-Heron via internet, mesmo que seja no intervalo entre a foto do almoço do primo que está viajando na Europa e o vídeo do último gol do Neymar e por meio de uma imagem que associa as palavras The Revolution Will Not Be Televised a alguma causa anti-Rede Globo com o botão de curtir do igualmente ultra-idôneo Facebook logo abaixo, se o apelo rebelde da frase levar uma parcela desses internautas a investigar a obra de Gil, então ela (a internet) já estará se prestando a um bom papel, para além daquele pretendido de informação e cidadania que afinal de contas nem tem grandes chances de gerar um efeito prolongado e efetivo, já que pouca gente se dispõe a deixar de assistir televisão, seja o Jornal Nacional, o Big Brother ou o futebol (que logo estarão sendo transmitidos e reinando nesta nova mídia também, se é que já não estão). Essas pessoas poderão descobrir, por exemplo, esse disco de 1974, Winter in America, um álbum magistral que é impossível de descrever precisamente em termos de estilos; para isso, prefiro deixar as palavras do próprio Gil: é "bluesology, the science of how things feel". Sem contar que é ele também um documento de protesto e de denúncia, e mais bem fundamentado e relevante do que a grande maioria dos mais populares e curtidos posts das redes sociais, pode ter certeza.

Melvins: 1983 EP

O line-up do Melvins é uma coisa bem louca de se acompanhar. Para entender quem gravou este EP e o porquê do nome 1983, é mais simples eu só deixar esse link aqui, até porque tal coisa não tem importância nenhuma, é só para os fanáticos (como eu). O que importa é a música, certo? Mas estar sempre a par da música de King Buzzo e cia também não é simples, já que eles não param de derramá-la pelo mundo numa frequência muito acima da média --- às vezes a impressão que dá é que eles estão aproveitando enquanto podem, lançando LPs, EPs, discos de covers e box-sets a cada oportunidade que aparece e enquanto a indústria fonográfica não vai pro saco de vez. E claro que o que torna esse desafio de acompanhá-los algo verdadeiramente digno de esforço é que é quase tudo sempre muito bom --- quero dizer, talvez essa seja a opinião meio enviesada de um fã, mas ouça esse EP do ano passado e me diga, não é demais? O caso é que até para nós adoradores é difícil acompanhar esse ritmo acelerado de engordamento da discografia dos Melvins (a nossa relação aqui é bem boazinha, mas não é tão completa quanto essa do site oficial), e essa pérola de EP quase me passou desapercebida, tendo sido lançada já em agosto do ano passado. Para que isso não se repita, acho que vou adicionar aqui no meu calendário de tarefas mensais, junto com "pagar condomínio", "pagar telefone" etc, um novo item: "conferir se Melvins lançou mais alguma coisa".

King Crimson - Red, Starless And Bible Black & Larks' Tongues in Aspic

Eu já citei o King Crimson por aqui antes, e aquilo foi um estágio pelo qual passou meu gradual aumento de interesse pela banda nesses últimos tempos (outro mais recente aqui). A coisa culminou nesse mês que passou e durante o qual vivi uma verdadeira obsessão por parte da obra da banda, uma imersão proporcionada principalmente pela tardia compra de alguns de seus discos --- até então nunca tivera nada deles em minha coleção além de velhas fitas gravadas sabe-se lá, a essa altura, onde e quando, e das cópias em mp3, e é óbvio que uma banda como o King Crimson não se ouve no computador enquanto se trabalha ou se lê ou se joga, King Crimson exige atenção, dedicação exclusiva e, se possível, um bom aparelho de som. Daí que aproveitando a oportunidade recente de estar em uma boa loja de discos (coisa cada vez mais rara, em qualquer continente), larguei mentalmente um "foda-se" para a conta bancária e catei logo três CDs deles, e só não peguei mais uns três ou quatro outros porque, bem, confesso que não foi exatamente um "foda-se", foi só um "com licença depois a gente conversa", algo mais ponderado do tipo. Os discos comprados, Red, Starless and Bible Black e Larks' Tongues in Aspic, eu ouvi tantas vezes por esses dias que sou obrigado a colocar a imagem dos três ali em cima, ao invés de escolher um somente para representá-los todos, como já fiz em outras ocasiões similares. E por ora a lacuna na coleção está bem resolvida, pois o que esses discos oferecem é um deleite prolongado, música riquíssima e nem de longe pedante ou intrincada ou entediante, que costumam ser os adjetivos que logo vêm a nossa mente quando pensamos em "rock progressivo". Acho que o KC e o Pink Floyd, principalmente esses dois, sofrem injustamente por estarem tão grudados ao termo, mas isso é matéria para depois. Voltando aos discos, o mais impressionante neles é, evidentemente, a guitarra do Robert Fripp, cheia de distorção e riffs memoráveis; ela dialoga --- é preciso esclarecer, para que incauto algum que nunca tenha ouvido KC pense que eu esteja fazendo alguma revelação surpreendente a uma humanidade até então ludibriada por um rótulo equivocado ---, ela dialoga sim com instrumentos diversos, se estende sim em longas sessões intrumentais cujos títulos tem subdivisões em parte I, II e III, há muitos silêncios e também doses de grandiosidade, mas a questão é que a coisa nunca sai do eixo da música para ouvir e apreciar instantaneamente, sem exigir para isso qualquer coisa além de alguma atenção. E a camada de psicodelia e viagem e experimentalismo que vem junto não se sobrepuja nunca, antes funciona como um tempero na medida perfeita posto que não nasce da mera exibição de técnica per se, ou de virtuosismo, e sim da tentativa de emulação dos sons do mistério, do transcendente, do cósmico. Ok, vá lá que música alguma que lide com esses temas pode ser tão pouco exigente como talvez eu tenha dado a entender, mas digamos que o mínimo que ela exige é altamente recompensado pelo muito que ela proporciona. Até porque não acho que seja boa coisa que rejeitemos de forma assim tão decidida a imaginação, a concentração, o não-prosaico e o não-imediato, nesses tempos de todos "habitando" estas mesmas massivas "aldeias virtuais" citadas lá no parágrafo do Gil Scott-Heron. Meu instinto me diz para fugir disso, e parte do meu plano é ouvir muito King Crimson enquanto corro na direção contrária.

Comentários:

Sid Costa | 03/09/2013

Fabrício. Fripp é gênio e ponto. Realmente vejo que o trabalho dele como guitarrista transcende o próprio instrumento. Parece Coltrane ou Miles Davis. Mas o mais importante é justamente a "turma" que o acompanha. Um dos maiores bateristas do rock (Bill Brufford) "senta" lá atrás, e os baixistas escolhidos são no mínimo competentes. Esses sujeitos costuram e deixam ser costurados pelas linhas e texturas produzidas por RF. Resultado? Uma entidade viva e distinta chamada King Crimson. Recentemente escutei muito a época "New Wave" deles (a trilogia das cores - Discipline/Beat/Three of Perfect Pair - Não sei se você prestou atenção, mas se trata efetivamente de outra "encarnação" do KC, totalmente distinta e ainda sim intrigante.

Fabricio Boppré | 03/09/2013

Então, Sid, por isso escrevi "(...) uma verdadeira obsessão por parte da obra (...)": é que minha atenção estava só naquela primeira fase da banda, até o Red, de 1974. Tudo que veio depois, eu ainda tenho que desbravar. (E tem ainda o extenso trabalho solo e outros projetos do Fripp, que também quero investigar...) King Crimson é realmente muito foda, cara. Quem nunca prestou muita atenção por preconceito com o lance do "rock progressivo", não sabe o que está perdendo.

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