Dying Days
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Discos do mês - Setembro de 2013

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Setembro de 2013

Soundgarden: Down on the Upside

O mês começou com uma fixação renovada pelo Soundgarden: ouvi muito o Superunknown (um CD-R gravado a partir de arquivos lossless pois descobri que o meu original está estragado, sendo já o meu terceiro CD a expirar), que é um discaço, tem Limo Wreck e tantas outras músicas sensacionais; ouvi umas duas vezes o não-menos alucinante Badmotorfinger e também os primeiros álbuns, todos ótimos. Mas o meu preferido, e isso estabeleceu-se logo na primeira vez em que eu o escutei, continua sendo o Down on the Upside. Uma característica nesse disco sempre me atraiu: com seu generoso tracklist de 16 músicas, ele é longo, denso, uma verdadeira jornada caudalosa que pode até cansar um pouco se enfrentada de cabo a rabo sem interrupções, mas ainda assim é muito compensadora. Dentre tantas faixas, é até difícil nomear destaques --- cito brevemente a primeira e a última, duas preferidas pessoais --- e quase não há momentos dispensáveis --- digo "quase" pois há somente uma música no álbum de que não gosto, a Blow Up the Outside World, que sempre achei excessivamente arquétipa e de letra bobinha demais (não que eu exija sempre obras-primas de literatura nas letras das bandas de rock, mas algum nível de tolerância meu fica muito contrariado quando ouve logo de cara "Nothing seem to kill me/No matter how hard I try").

Yo La Tengo: I Can Hear the Heart Beating as One

Parece ter sido o mês de retirar a poeira acumulada sobre alguns discos tipicamente noventistas, não? O I Can Hear the Heart Beating as One nem é meu disco do YLT preferido, mas fui fisgado por uma faixa dele que apareceu num shuffle que eu ouvia a partir do computador numa certa tarde tediosa, que funcionou como uma piscadela me convidando para um programa mais promissor de noite --- escutar o disco completo. Foi a primeira vez em muitos anos, foi ótimo, e repeti a dose mais algumas vezes durante aquela semana. Adoro as guitarras que parecem habitar uma camada subjacente do disco, um estrato carregado de microfonias cujos ecos dão a impressão de derramarem-se por todas as faixas ao invés de pertencer a essa ou àquela, mais ou menos como se certas músicas estivessem transbordando umas nas outras --- ou isso de fato acontece, ou então os problemas auditivos que eu certamente terei devido aos anos e anos de música alta nos fones estão começando a se manifestar (ou ainda, quem sabe, seja só uma licença poética que encontrei para descrever o meu manejo com o disco). Enfim, há fantasmas vagando por ali, há também canções que soam como as melhores músicas do My Bloody Valentine não gravadas pelo My Bloody Valentine, e há também canções doces e serenas, o trilar de grilos a projetar na imaginação cenas noturnas de tranquila solidão, longe da cidade, longe de todo mundo, mas não muito --- tipo aqueles barrancos típicos de filmes americanos, onde os personagens estacionam seus carros e ficam a contemplar, do alto, as luzes da cidade lá embaixo. Belo disquinho de uma banda que preciso voltar a ouvir com mais frequência.

Amon Düül II: Yeti

A minha primeira audição deste disco, ocorrida poucos dias atrás, teve o efeito ao mesmo tempo frustrante e sublime de fazer com que toda minha coleção de CDs e vinis e fitas K7 se tornasse boba, supérflua, inútil. (Um pequeno exagero, claro --- digamos, uns 95% da minha coleção.) Pois isso aqui sim é música, meus amigos: música selvagem, instigante e visceral que parece estar o tempo todo prestes a romper algum inconcebível limiar físico e ganhar vida própria, escapando de seus criadores e da ordem natural das coisas e materializando-se numa besta indomável e arrepiante. Foi uma experiência e tanto, que me fez relembrar até um certo sentimento há muito adormecido, uma vontade peremptória manifestada pela primeira vez na ocasião em que devorei, na infância, uns tantos volumes da coleção Vagalume e passei então a incomodar amigos e familiares pedindo que todos lessem também aqueles livrinhos, pois eu queria que todos se embrenhassem naquelas aventuras assim como eu tinha feito, queria compartilhar aquele prazer e conversar sobre aquela forma de imersão recém-descoberta e nada disso era possível fazer apenas descrevendo os livros para as pessoas --- era necessário que elas os lessem. Pois então, reprisei, perplexo, esse episódio ouvindo este fabuloso Yeti dos alemães do Amon Düül II: eu queria que todos ouvissem esse álbum e experimentassem por si mesmos o prazer de descobri-lo (quem ainda não o fez, logicamente), pois eu o achei extraordinário para além do que posso descrever; sua descoberta foi um surpreendente mergulho vertiginoso finalizado com uma passagem para uma nova etapa, assim como foi a leitura daqueles livrinhos da coleção Vagalume em seu tempo. Espantoso dizer isso a essa altura, mas foi quase como se eu me maravilhasse com música pela primeira vez, e isso me fez pensar seriamente como é incrível, se você tem interesse e lê e vai atrás, como é incrível ser possível descobrir música fantástica continuamente, sons realmente sui generis gravados nos mais variados cantos do mundo que nos despertam o tempo todo a pergunta "como eu nunca tinha escutado isso antes?", ao mesmo tempo que toma forma uma vaga consciência de que sabíamos o tempo todo de sua existência, pois afinal, como ninguém nunca haveria de ter pensando nessas músicas sensacionais antes? Elas estão aí, gravados há 40 anos ou ontem. Basta olhar na direção contrária da manada, investigar, experimentar, que você logo começa a ser recompensado com o genuíno brilho do espírito humano, irradiando de todas as épocas e de todos os lugares, pairando por cima de todo o lixo despejado diariamente pelas engrenagens da Indústria Cultural moderna. (Me perdoem o esnobismo evidente dessa última sentença, mas discos desse quilate obrigam qualquer um que se aventure na tentativa de dar conta de suas dimensões, a expressar-se nesses termos; o contraponto com o pop, com o mainstream, realça ainda mais notavelmente suas singularidades, sendo irresistível essa pequena covardia... )

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