Discos do mês - Outubro de 2013
Fabricio C. Boppré |Imagem principal:

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Morphine: Cure for Pain
Eu tenho essa habilidade, pela qual até me sinto meio culpado de vez em quando, de me recolher em meu canto e me ausentar totalmente do mundo. Não é difícil para mim tornar-me alheio aos desastres que se sucedem do lado de fora. Mas eu não sou totalmente insensível: discos como este, além daqueles que citarei na sequência, levam boa parte da culpa. Tenho comigo que topar a proposta de isolamento em suas cápsulas de tempo e espaço é pré-requisito para usufruir plenamente certos discos; aceitar que se ergam essas paredes que nos separarão do resto do mundo, por um breve período que seja, é obrigatório se quisermos experienciar completamente seus ensinamentos, belezas, dores, etc. Além do que, no que diz respeito às dores, se é para adicionar às nossas próprias as dores de outros, me parece razoável que se dê preferência àquelas arranjadas com instrumentos musicais e cantadas por aqueles que de fato olharam nos olhos do abismo, não? O Cure for Pain, do Morphine, foi uma das primeiras de uma série de audições marcantes neste mês que passou, quando mesmo discos que eu ouço há anos me deslumbraram e me renovaram como poucas vezes anteriormente. Se música funcionasse para todo mundo como funciona para mim, a indústria farmacêutica iria a falência e as igrejas teriam que fechar suas portas devido à falta de devotos.
Philip Glass: Glassworks
Essa é uma droga sonora à qual recorro regularmente, música sistemática e lúcida que, apesar desses predicados, não deixa de ser também altamente evocativa. (Antes de continuar: até bem pouco tempo atrás eu não me atreveria a escrever essas coisas todas, mas tenho me livrado desses pudores e tentado publicar aqui os relatos mais fiéis possíveis das minhas audições e das viagens delas resultantes, por mais burlescos que soem, então lá vai.) Esse disco carrega consigo uma espécie de clareza revitalizante, música de conceito e execução aparentemente simples (para quem ouve; já no que diz respeito à composição, partitura, essas coisas, não faço idéia), no seu minimalismo residindo um elixir de desanuviamento, um núcleo irradiador de esclarecimento que atua ora por via de ondas de modulações perfeitamente simétricas e cristalinas, ora através de simples peças clássicas ao piano. Ao contrário de sons do tipo descrito neste link, que parecem habitar as esferas do místico, do desconhecido, aqui é tudo sempre rigorosamente enquadrado e abalizado pelas nossas leis e entendimentos terrenos, sons que são respostas precisas e contingentes ao racionalizado toque gerador humano e não se rebelam nem se descontrolam nunca. E apesar dessa percepção de fórmula matemática, de confinamento a um roteiro perfeitamente executado e sem qualquer aresta, ainda assim o disco gera efeitos sublimes: aqui eles nascem da beleza crua e desadornada de cada som --- obedientes e repetitivos, sim, mas sempre intrinsecamente belos --- e da urdidura que vai se tecendo hipnoticamente entre eles, pontos de entrelaçamento a passos cronometrados que erguem pouco a pouco um cenário parecido com a caverna de gelo aquela onde o Superman ia recarregar suas forças nos velhos filmes com o Christopher Reeve. Nos momentos apoteóticos do encantamento, com os pés firmemente postados em meio ao esplendor ofuscante do cenário que, tal qual a técnica arquitetônica de algumas metrópoles modernas, se vale do astucioso artifício de revestir-se de espelhos para tudo ao seu redor absorver e assim conferir-se ainda mais beleza, nestes momentos um raciocínio mais claro parece possível, um poder de compreensão maior é apreendido, e qualquer nó de qualquer novelo que esteja a travar sua imaginação parece desatar-se mais facilmente, e até o mais difícil e enigmático dos teoremas matemáticos ainda não-resolvidos pode lhe parecer simples de ser desvendado.
John Coltrane: A Love Supreme
Aqui a coisa vai para um novo patamar. Para começar, este é um daqueles discos que parecem ornados por uma espécie de aura de sacralidade, de venerável obra-prima, que faz com que você o retire da estante e o segure por alguns segundos com reverência e solenidade antes de botá-lo para tocar. Esse é o pré-rito: enquanto analisa novamente o olhar (sempre) compenetrado e distante de seu autor na capa, você reflete muito detidamente se o momento é realmente adequado para escutá-lo. E de fato são frequentes as ocasiões em que acabo por declinar de colocá-lo na vitrola --- e espero que já tenha ficado claro que não se trata aqui da preservação da integridade física do objeto, nem nada do tipo: é realmente uma questão de consonância entre circunstâncias internas e externas e uma música que exige dedicação, abertura de espírito, e que por via desse zelo deverá resultar em uma epifania de efeito prolongado, e utilizá-la para qualquer propósito diferente disso é como uma perversão. Esse manejo envolve coisas que aprendemos com o tempo, e também não foram poucas as vezes em que errei na avaliação dessas condições, o que resultou numa conexão tardia com o disco. Porém, como diz o provavelmente mais famoso e verdadeiro dos ditos populares, antes tarde do que nunca: quando esta ligação acontece, é como se então tomássemos posse definitiva de um conhecimento inestimável, passamos a ter acesso a algo valioso que irá daí por diante aliar-se às nossas vidas e preencher as lacunas de nossas almas humanas, insuficiências normalmente tão mal disfarçadas pelas demandas do cotidiano, do trabalho, dos compromissos sociais e tudo mais. Mas não é, obviamente, como esses remédios aos quais as pessoas estão cada vez mais viciadas e tomam para dormir, para trabalhar, enfim, para seguir adiante: há no disco de Coltrane, como dito acima, um predicado de condicionalidade, uma inaptidão ao uso contínuo e receitado que deriva da radicalidade de sua experiência plena. Para todos que procurarem nesta música por aquilo que, para citar outro dos refúgios mais comuns, as religiões ocidentais --- em sua maioria representadas hoje em dia por pregadores de obtusidades medievais no púlpito e na televisão, velhacos já sem nenhum resquício de interesse pelo espírito dos homens, ocupados que estão com estratégias e com o tamanho de suas bancadas e com o refreamento de tantos progressos e liberdades, pois bem sabem que reside nestes progressos e nestas liberdades a sua derrocada definitiva, faltando pouco até, ouso dizer, para assumirem publicamente de vez suas vocações atuais exclusivas de partidos políticos e clubes de pedófilos e outras patifarias diversas --- mas eu dizia, para todos que procurarem neste disco pelos desvendamentos que estas toscas religiões não têm nenhuma condição (e muito menos interesse) em conceder e os remédios acabam apenas por amortizar suas latências durante meia dúzia de horas, este sentido A Love Supreme concede através da pulverização gradual dos contornos e das identidades alienadas umas das outras de tudo que nos rodeia, incluindo aí nós mesmos, desfiguramento seguido pela reformulação disso tudo em uma nova realidade feita de uma matéria só e de onde nasce finalmente uma serena e enternecedora percepção de unidade com o universo. A emancipação de Coltrane o transformou em canalizador do conhecimento supremo e ancestral cujo efeito último é o de reestabelecer o batimento cardíaco de seu receptor àquele ritmo --- embora hesitante --- corajoso e deslumbrado do momento exato em que seu coração pulsou pela primeira vez no útero materno e a vida fez-se presente enquanto ainda biologicamente conectada há algo maior, e é precisamente com isso que vem o despertar dessa que é a maior das gnoses e que todos nós trazemos adormecida conosco e que repousa também na natureza e também no interior de cada estrela de todo o cosmos: somos individualmente ínfimos e insignificantes, mas fazemos parte de algo infinitamente vasto, belo e eterno. Coltrane, nas liner notes do álbum, se refere a essa unidade como "God"; eu não sei como chamar, mas sei que há músicas que ajudam a compreendê-la, e que de todas essas músicas, nunca nenhuma outra foi tão longe quanto esta.
Nota final: os últimos dias do mês foram marcados por repetidas audições de R.E.M. e Lou Reed, mas não tive tempo de escrever nada sobre eles, o que foi até providencial, já que o post com os três discos acima ficou bastante extenso. De todo modo, continuo ouvindo-os, então deve aparecer alguma coisa no relato do mês que vem...
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