Discos do mês - Novembro de 2013
Fabricio C. Boppré |Imagem principal:

Texto:
R.E.M.: Out of Time
Apesar de ser um disco manjadíssimo, eu não estou muito certo de que, passados mais de 20 anos de seu lançamento, as pessoas ainda se lembrem de como é bom o Out Of Time, ou mesmo de que tenham realmente se dado conta disso na época de seu lançamento, já que ele acabou por catapultar a banda para uma certa esfera do mundo musical onde a crítica mais elaborada não é exatamente algo muito pertinente e tampouco os superficiais festejos momentâneos são prenúncios de relevância à prova do passar do tempo. Não que eu pense que a crítica de rock/pop seja como a crítica literária acadêmica ou algo do tipo --- mestres como Lester Bangs que me perdoem ---, mas o que eu quero ressaltar aqui é que a inadequação para a atenção crítica e concentrada da grande maioria da música que ocupa essa faixa pode fazer com que um disco que ali inesperadamente apareça não receba o escrutínio mais justo e revelador de suas qualidades que ele mereceria, a atenção que o sedimentaria na narrativa da história da música da época, para além das efemérides sobre seus hits. E tem ainda o fato de esse disco preceder a obra-prima inequívoca do grupo, o Automatic for the People. Então eu pergunto: a desavergonhadíssima estampa pop que viabilizou a entrada de Out of Time nestes círculos mais amplos explica plenamente o seu sucesso radiofônico e comercial, mas terá ele transcendido isso, quero dizer, permanece ele --- ele inteiro, e não somente os hits --- vivo no coração das pessoas? Mais especificamente: os fãs da banda, ainda hoje o escutam? Têm consideração por ele? Para mim, o álbum tem logo de cara o problema de começar mal; não que eu deteste Radio Song, mas acho-a fraquinha, bem pouco digna de ocupar tão importante posição. Mas, apesar disso, e de mais uma ou duas outras faixas que eu posso perfeitamente passar sem, como ir contra um álbum que tem Near Wild Heaven, Texarkana, Country Feedback e Me in Honey? O lado B --- o Memory Side; os lados das versões em vinil dos discos do R.E.M. sempre têm títulos --- é tão bom que nele às vezes se superpõem o deleite de uma música com o deleite da antecipação da próxima música. Então, de minha parte, é isso: eu nunca deixei de ouvir o Out of Time, e amo esse disco. É um tracklist tão querido que não tem nem como reclamar dos poucos momentos menos apreciados, afinal, para cada Radio Song tem duas Near Wild Heaven --- quero dizer, tem Near Wild Heaven e Texarkana, que são quase a mesma música, e isso não é nada que denigra uma ou outra, ambas maravilhosas --- e para cada Shiny Happy People, música que está gravada eternamente em nossos cérebros e até hoje eu não consegui decidir se isso é bom ou ruim, tem uma Losing My Religion, também imortalizada em nossas lembranças e neste caso, sim, algo indubitavelmente ótimo.
Pearl Jam: Lightning Bolt
Acho que o melhor elogio que posso fazer ao novo disco do Pearl Jam é o de que ele é bem melhor do que o Backspacer. O problema é que este último é, na minha opinião, um disco indefensável, ruim a ponto das duas ou três ótimas faixas que ele traz passarem longe de salvar o conjunto, de modo que este elogio relativizado ao novo álbum não significa necessariamente que ele seja ótimo. Até tenho escutado-o com prazer, e devo acrescentar que ele caminha seguro para consolidar-se, no meu ranking pessoal, em uma posição também acima a do disco azul (deve estacionar aí), mas desde a primeira audição ficou bastante claro para mim de que se trata de apenas mais um disco, algo protocolar, sem qualquer sinal de alguma relevância a ser decantada com o tempo. Parece que o papel de habitué desses programas de entrevistas americanos e de headliner de festivais, afinidades finalmente assumidas sem pudores pela banda de uns anos para cá, para o desalento de uma parcela de fãs mais antigos e idealistas, e também a aceitação da grandeza de seu próprio nome, reconhecimento publicamente admitido e festejado com o lançamento de um filme em auto-homenagem pelos 20 anos de estrada, parece que tudo isso criou uma zona de conforto que exige que recalibremos nossas expectativas diante da notícia que aparece sempre a cada três ou quatro anos, "Pearl Jam em estúdio preparando seu novo álbum". Não acho que o destino do Pearl Jam seja o de se transformar no Rolling Stones de Seattle, mas a época dos discos especiais e da postura anti-comercial parece ter ficado definitivamente para trás. Bem, paciência. Pelo menos os shows continuam verdadeiras sessões de catarse coletiva.
(Há outro elogio justo de ser feito ao Lightning Bolt: a arte do álbum é ótima, todo o pacote do vinil é muito bonito e bem feito e há ainda, para os surfistas, o agradinho da frase do Gerry Lopez inscrita no disco. Pena que fui agraciado com uma das cópias defeituosas.)
Black Rebel Motorcycle Club: Specter At The Feast
O disco anterior do BRMC, o Beat The Devil's Tattoo, eu ouvi poucas vezes, mas esse Specter At The Feast eu tenho ouvido constantemente. São discos bem parecidos, esses dois e mais o Baby 81, acho que eles se equivalem entre seus bons e maus momentos, e a preferência atual pelo Specter At The Feast é puramente casual: é o disco mais recente. A longo prazo, ouvir um ou outro tende a ser aleatório, sem nenhuma preferência intencional agindo. O fato é que eu não acredito que eles voltem a lançar algo tão significativo como o Howl, de 2005, obra-prima que parece resultado de um relâmpago de inspiração divina que não voltará a cair, mas também estes discos médios que eles vão lançando, de algum modo, ganham minha afeição sem muito esforço. Gosto da fórmula deles, do clima das músicas, da unidade dos discos, da crença que a banda parece ter no que faz... Me identifico com esse caminho que o BRMC vem seguindo, e sigo com eles desde o primeiro disco. Mais boa vontade com eles do que com o Pearl Jam, sim, eu confesso, sem dúvidas. Dessas coisas que não se explicam totalmente de forma racional.
Comentários:
É, esses discos com hits que nos 90 nos fizeram comprá-los hoje carregam eles como obstáculos pedindo por uma teclada no forward (claro, se for vinil você vai acabar escutando os hits enquanto enseja pelas faixas entre eles, pois não é tarefa das mais confortáveis trackear apenas as faixas de interesse). São poucos discos que contém hitzões e conseguem ser encarados como uma obra indivisível, ou pelo menos não são maioria. Nevermind, por exemplo, é um disco com pelo menos 50% de músicas sem espaço nos meus ouvidos há muito tempo, não porque são ruins (pelo contrário) mas porque já cumpriram seu papel por aqui. Concordo que Out Of Time hoje encanta pelas músicas que nos 90 talvez tenham passado batidas ou sem a profundidade que mereciam na época mesmo.
Ah, e concordo com sua visão sobre o Pearl Jam. Mas um pouco disso é resultado do zeitgeist: você simplesmente não tem muito mais forças ou recursos para se tornar relevante através de uma contra-cultura, ou levantando uma bandeira. Estamos na era onde um vídeo do Merzbow pode ser acessado na mesma fonte que um do Bieber. Acho que os caras do PJ já fizeram o possível por causas e de alguma forma estruturaram o terreno pelo qual transitam hoje. E por se tratarem de caras que daqui a pouco terão 50 anos, bem, acho que se reúnem mesmo para tocar covers de Ramones e Neil Young, sendo os novos discos uma consequência de não necessariamente enfrentar o desafio de intensificar as chamas, mas de apenas deixá-las acesas na intensidade que for.
Particularmente eu acho que desde do Riot Act fica difícil esperar esperar algo do PJ. Recentemente dediquei um tempo escutando essa "discografia menor" e a coisa mais latente dessa fase é a falta de paixão dos caras. Parece que foi tudo embora no último urro dado por Ed em Save You. Sempre tem músicas boas. O Riot tem o melhor single dos últimos 11 anos Save You. O Abacate é o que mais me agrada, tem Parachutes que é linda, além da trinca matadora no final, Army Reverse, Come Back e Inside Job. No Backspacer tem Amongst the Waves e no Lightning Bolt tem My father's Son. Daria um disquinho maneiro as sete juntas.
Vicente: o engraçado é que ontem eu ouvi o Nevermind, depois de um bom tempinho sem fazê-lo. Acho até que foi a primeira audição do vinil que eu comprei em 2011, aquela reedição comemorativa dos 20 anos... Difícil descrever a audição desse disco hoje em dia. Mas o Out of Time eu não titubeio, gosto muito, e ainda ouço muito. Aquelas quatro faixas citadas ali em cima, Near Wild Heaven, Texarkana, Country Feedback e Me in Honey, gosto mais de cada uma delas do que do Nevermind inteiro, acho.
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