Dying Days
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Discos do mês - Fevereiro de 2014

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Fevereiro de 2014

Midnight Oil: Breathe

Esse disco do Oil, citado frequentemente aqui neste pequenino quinhão de espaço internético, cresceu comigo como uma espécie de parceiro de viagem, um item imprescindível a ser conferido na bagagem pouco antes de sair de casa, assim como o canivete suíço, o passaporte e a câmera fotográfica. Viajar é sempre uma experiência intensa, várias sensações comprimidas naqueles dias longe de casa em um lugar totalmente novo ou mesmo já pertencente a outras lembranças, mas nem sempre é tudo alegria e descoberta; tem as filas, o maldito aeroporto, às vezes um clima inóspito inesperado, o cansaço que nos rende para um descanso meio a contragosto... Nessas horas, e também naquelas em que você simplesmente pára num lugar quieto e fica observando as coisas ao redor enquanto tenta absorver de forma um pouco mais ordenada o turbilhão de novidades, não há companhia melhor do que aquela música altamente familiar e querida que reestabelece certos vínculos e estados de espíritos. Lembro de ouvir muito o Breathe num verão de férias, o de 1997, logo depois do seu lançamento, e na sequência levá-lo comigo numa pequena viagem de família, um fim-de-semana com pai-mãe-irmão numa cidade pequena qualquer não muito longe, e já ali naqueles primeiros tempos de convivência, o CD --- que durante a viagem eu ouvia duas ou três vezes por dia a partir de um discman --- ganhou status de um dos discos da minha vida e parceiro inseparável de explorações em outras terras. Eu já era muito fã do Oil antes, e ainda por cima assisti à banda em ação pela primeira e única vez naquela mesma época, em um show da turnê de divulgação deste disco cujas lembranças mais fortes são: fomos ao show eu e um amigo que não conhecia muito a banda, e a cada música que iniciava eu gritava no ouvido dele, "essa é do disco tal", "essa eu gosto muito", "essa eu gosto menos" etc.; o show abriu com a sensacional Bring on the Change; me surpreendi com o tamanho do Peter Garrett, o vocalista careca que eu não sabia até então que tinha mais de 1,90m; e durante o hit Beds Are Burning aconteceu uma queda de energia no local que apagou todas as luzes e emudeceu bruscamente todos os sons do palco. Pena não ter anotado na época o setlist completo... Enfim, esses fatores todos, para além do fato do disco ser ótimo, contribuíram para consolidar meu enorme apego por ele, mas hoje em dia, principalmente nessas ocasiões de viagem --- e ainda mais principalmente quando o destino é alguma metrópole dessas de vida acelerada ---, o motivo fundamental que faz com que eu continue escutando-o, o fator quase místico que me faz permanecer um obstinado devoto de suas canções é a imagem (e demais sensações) intensamente evocada por suas 13 faixas: a imagem do mar. O mar, abundante na minha cidade natal, presente em quase toda minha vida, o mais misterioso e deslumbrante dos símbolos da "floresta de símbolos" que é a natureza (como dizia Baudelaire, que como poeta se atribuía ainda a responsabilidade central de elucidar esses símbolos), esse colosso ao mesmo tempo muito próximo e muito desconhecido e sempre associado ao sublime, ocasionador frequente de epifanias no homem que deixa-se estar quieto, por algum tempo, frente à imensidão da natureza. Não que ouvir esse disco no meio de uma grande cidade encrustada no meio de um continente me faça sentir o cheiro da água salgada, ou me faça querer voltar para casa (por sorte nunca padeci de homesickness), mas ele conforta e estimula através da reiteração daquele conhecimento primitivo que temos sobre a perenidade da natureza ("seasons won't falter, stars won't fade away", canta Garrett em uma das minhas faixas preferidas) e sobre a nossa própria consciência de eternidade reconhecida uma vez que nos entendemos como parte dessa mãe comum que temos todos --- ainda que pareçamos impermanentes e frágeis quando nos assumimos como indivíduos separados, isolados, excepcionais. Se não é possível estar sempre em frente ao mar para experimentar e reforçar em nossas espíritos essa comunhão, esse disco funciona como um instrumento alternativo para isso, seja lá onde for que as circunstâncias da vida tenham nos carregado. Por isso, assim como o canivete suíço para abrir as garrafas de vinho (outro poderoso instrumento...), o Breathe está sempre na bagagem, quero dizer, nos equipamentozinhos portáteis de som (já que o discman há muito foi aposentado), tornando todas as viagens ainda mais proveitosas, e também depositando na volta para a casa a expectativa do reencontro com o pedaço de mar que eu conheço plenamente, unindo assim todas as pontas e fazendo da vida uma única grande jornada.

Black Rebel Motorcycle Club: Beat the Devil's Tattoo

E viajar ainda por cima nos permite ver, ocasionalmente, shows que nunca veríamos se não saíssemos para um pouco mais longe de casa, para longe do litoral... Comentei já por aqui que eu vi recentemente um show extraordinário do BRMC, e por conta disso, como de costume, andei ouvindo repetidamente os discos da banda. No fim do ano passado eu escutei bastante o Specter at the Feast, e depois resolvi dar mais uma chance ao Beat the Devil's Tattoo, que havia passado meio batido na época em que foi lançado. Passei a gostar mais dele: há no tracklist pelo menos duas faixas espetaculares que justificam plenamente sua existência, Aya e Half-State. Pena que não tocaram nenhuma dessas no show.

Iron Maiden: No Prayer for the Dying

Esse disco deve aparecer frequentemente nas listas dos cinco menos preferidos dos fãs da banda (fãs de Iron Maiden adoram fazer listas), mas eu tenho boas lembranças dele: foi um dos primeiros que eu conheci, tendo pegado-o emprestado meio aleatoriamente com um amigo que tinha toda a coleção do Maiden. Não lembro se esse meu amigo fez alguma advertência ou deu algum conselho sobre outras escolhas possivelmente melhores, mas naquela época o No Prayer for the Dying era também um dos mais recentes, e talvez isso tenha influenciado. Enfim, sem saber muita coisa sobre a banda, sem saber quais eram os clássicos, os discos habitualmente mais adorados, nada disso, eu gravei minha tradicional fitinha K7 com uma cópia do CD, me pus a escutá-la e gostei muito logo de cara da introdução de Tailgunner, que permanece ainda hoje como uma das minhas faixas preferidas do Maiden. Claro, depois eu conheci outros discos bem melhores da banda e depois, o que é ainda mais natural, parei de escutar Iron Maiden, mas vez ou outra, quando bate a saudade daqueles tempos, do Bruce Dickinson se esgoelando para cantar aquelas letras tolas divertidas todas e das capinhas com o monstrengo Eddie onde uma das nossas diversões era procurar pela assinatura escondida do Derek Riggs, nessas ocasiões não é raro eu puxar o No Prayer for the Dying.

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