Discos do mês - Março de 2014
Fabricio C. Boppré |Imagem principal:

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Rolling Stone: Voodoo Lounge
Sempre que eu ouço alguém dizer que prefere os Stones aos Beatles, não consigo evitar o pensamento de que se trata de alguém querendo dar uma de sabichão, uma de perito superior em rock 'n' roll versado em uma verdade pouco divulgada que inverte as coisas todas que nós, seres menos capacitados, temos por óbvias. Porque é meio óbvio que os Beatles são incomparáveis e pouquíssimas bandas estão no mesmo patamar do quarteto de Liverpool, em termos de genialidade e criação, não? Os Stones são ótimos, mas não parecem ser uma dessas bandas... Ok, parte do que escrevi é um exagero; posso compreender sim alguém preferir Jagger & Richards (e os outros) à Lennon & McCartney & Harrison (e o Ringo --- aliás, será verdade que certa vez perguntaram ao Lennon se ele achava que Ringo era o melhor baterista do mundo ao que ele respondeu que o Ringo não era sequer o melhor baterista dentre eles quatro? Verdade ou não, é a melhor anedota da história da música, com folga), mas ainda assim me soa um tanto estranho colocar os Stones na frente dos Beatles, se estiver se falando estritamente de música, claro. O problema maior talvez seja esse monstrengo em que os Stones se transformaram, uma banda que hoje mais parece um imenso negócio totalmente desconectado dos princípios básicos de desobediência do rock 'n' roll, a banda (ou marca) preferida do mundo publicitário e seus conceitos e estéticas tolos e rasos, quase que a trilha-sonora oficial de tudo que é "descolado" e envolve muito dinheiro e festas regadas à champagne caro em beiras de piscinas iluminadas. Os Beatles já iam finados fazia um quarto de século, John Lennon se retirara da vida e se transformara em santo fazia 15 anos enquanto os Stones, serelepes, faziam propaganda para o Windows 95 (quem lembra?). Os Beatles encerraram no auge, sua obra ficando então congelada de um modo que nunca perderá seu poder de fascínio, enquanto os Stones, ano após ano, década após década, continuam protagonizando essa decadência pública que, não é difícil deduzir, é movida por incontáveis quantidades de dinheiro, toda uma máquina que parece hoje imparável de tanto que tem de peso e modorra e pequenas outras máquinas juntas se arrastando e contabilizando milhões e milhões a qualquer minúscula ação dos quatro senhores. Como preferi-los aos Beatles e sua mítica trajetória? Mas é claro que também gosto da obra dos Stones --- sou humano, e até tomo champagne de vez em quando. Meu primeiro disco da banda foi o Voodoo Lounge, a estrela da primeira turnê que os Stones fizeram pelo Brasil, em 1995 (o álbum tendo sido lançado no ano anterior). Botei para tocar algumas vezes este meu velho CD nos últimos dias, relembrando com nostalgia dos hits daquela época, Love Is Strong, Sparks Will Fly, e uma outra que não virou hit, mas eu adorava, a última faixa do disco, Mean Disposition, e lembrei-me também da decepção que tive quando ouvi o disco de cabo a rabo pela primeira vez e percebi que não estava em seu tracklist uma música que eu adorava e que eu conhecia só de ouvir um trecho numa propaganda televisa que divulgava os shows que a banda faria pelo Brasil, e que só depois de conhecer os discos mais antigos fiquei sabendo que se tratava de um dos velhos clássicos do repertório dos Stones e se chamava Jumpin' Jack Flash. Se eu não me engano, um daqueles shows no Brasil teve transmissão ao vivo pela TV (ou então eu vi uma gravação depois), e lembro-me de achar esquisito a figura destrambelhada do Keith Richards naquele enorme palco cheio de luzes e fogos de artifício... Era como uma bizarra cerimônia fúnebre pelo ocaso do grunge, a platéia brasileira colaborando com seu intrínseco talento de transformar em carnaval até mesmo um funeral. Enfim, a banda já era naquela época esse enorme paquiderme que parecia ainda mais anacrônico depois do reinado das bandas de Seattle, mas o Voodoo Lounge era um bom exemplar do que eles tinham de bom, o rock meio blues bêbado e despretencioso que nem parece obra dessa mega-corporação que os Stones são hoje.
Bob Marley: Exodus
Coisa de uns dois anos atrás foi lançado um documentário sobre o Bob Marley, e pelo menos na Inglaterra, onde eu morava na época, o filme foi bem recebido, a crítica elogiou, as pessoas comentaram, e eu fiquei feliz com a esperança de que pudesse acontecer a partir dali uma ampla reabilitação da figura lendária e inigualável de Marley, coisa que o filme propunha. Afinal, a marginalização do jamaicano foi erigida gradualmente sobre uma fundação muito tosca, a do ódio cego pela pobre plantinha que Marley fumava e que aparenta ser, para algumas pessoas, o próprio veneno destruidor da humanidade enviado por Satanás em pessoa e protocolado por todas as outras instâncias maléficas do inferno. Essa visão intolerante parece ter vingado em grande escala, e tudo aquilo que Bob Marley pregava em primeiro lugar --- principalmente o amor à natureza e ao próximo --- foi ficando desprezado em segundo plano, como se fossem causas menos importantes diante ao crucial silenciamento dessa subversão abominável que é... cultivar uma planta. Um negócio lamentável demais, pois sua música e suas mensagens fazem um bem para alma como poucas outras podem fazer. Esse disco Exodus, por exemplo, parece um prolongado mantra de tranquilidade, música captada diretamente dos espíritos da natureza e entoada sem ruídos ou distorções por um porta-voz destituído de qualquer vaidade e de qualquer outro propósito que não o de restituir nossa paz e serenidade. Essa pureza de Marley parece ser, no fim das contas, o que assusta tanta gente, que sente-se inconformada e ofendida com sua própria pequeneza incontornavelmente evidenciada diante da majestade natural e esfarrapada do cantor, a ligação deste com a cannabis funcionando então --- e convenientemente em consonância com tantos lobbys e preconceitos --- como argumento para atacá-lo e defenestrá-lo. Claro que aquela minha esperança citada na primeira frase morreu na praia; como eu especulava dia desses a respeito de Jim Morrison, não vivemos dias muito promissores para as figuras mais rebeldes e originais, pelo menos não no âmbito do grande público cada vez mais prisioneiro de porta-vozes de outras entidades.
Midnight Oil: Scream in Blue
Ok, não vou me alongar novamente sobre o Midnight Oil, já que eles encabeçaram o texto do mês passado, mas não posso evitar de ao menos citá-los brevemente, já que este fantástico disco ao vivo foi de longe a coisa que eu mais ouvi esse mês. Tenho-o desde dezembro de 1992, como atesta a anotação à caneta feita na parte interna do encarte (hábito que eu tinha quando criança: registrar a propriedade nos meus livros e discos), presente de uma tia naquele Natal, e provavelmente o terceiro disco da minha coleção. A melhor descrição sobre o Scream in Blue eu li numa revista Fluir, na época do lançamento, e nunca a esqueci: "um barril de combustível em chamas". É isso aí mesmo; as guitarras maníacas e incendiárias deste disco mudaram minha vida, posso dizer sem incorrer em exagero algum.
Comentários:
Bom, tu sabes que eu também não consigo verificar as bandas sem doses de criticismo e, assim como tu, acho sim que os Stones há muitos anos não representam qualquer tipo de atitude que talvez um dia tenham representado. Mas é um mal das grandes bandas: Metallica, Iron Maiden, Ozzy, AC/DC não deixam de cometer os mesmos desafios ao senso de ciclo de vida das coisas. Mas por outro lado prestam-se a atender uma massa que não consome música com criticismo e, bem, elas movimentam muitas coisas. No caso dos Stones (e até mais grave, dos Beach Boys), atendem os anseios de quem "gosta de qualquer coisa", de quem entende isso por rock bem feito ou mesmo por quem gostava dos caras nos anos 60 e hoje, na terceira idade, se nutre dos "novos" discos dessas bandas clássicas para manter vivos seus links com o passado. Não vejo como um mal, é uma espécie de acordo com algumas gerações de que eles vão encenar seus egos em nome do "rock" enquanto esse público financia essas marcas e, bem, se satisfaz com a certeza de que nem tudo que preservaram do passado perdeu-se no tempo.
O prazo de validade já há muito ultrapassado até que não me incomoda tanto, geralmente eu penso algo do tipo "quem sou eu para julgar se alguém deve ou não continuar fazendo o que faz", quero dizer, se um artista ou banda deve ou não parar. Temos nossas opiniões baseadas na qualidade dos discos e dos shows, ficamos especulando, aqui mesmo muitas vezes já debatemos se tal ou tal banda deveria ainda estar na ativa, mas no fim das contas, se os caras se divertem e tem nisso um trabalho que os mantém ocupados, então é difícil a gente criticar, apesar de o fazermos como parte da brincadeira toda. Mas no caso dos Stones o buraco é mais embaixo, o problema é que a longevidade veio acompanhada de uma corrupção total da marca, essa coisa de vender suas músicas para perfume, para marcas de luxo, de carro, de computador, e de qualquer coisa... Não que eu ache que todas as bandas tenham que ter padrões de integridade a la Clash e Fugazi (se bem que, no caso do Clash, depois da morte do Joe Strummer, tenho impressão que a coisa mudou um pouco de figura), mas no caso dos Stones, sempre achei esse comercialismo um tanto ostensivo. Talvez seja uma bobagem, mas pelo menos um restinho de idealismo eu gosto resguardar.
Obviamente entendo teu ponto de vista. Mas creio que essa mudança de banda para marca corresponda aos anseios dessa massa que consome o trabalho desses artistas. Mais ou menos como quando anunciam um box com todos os discos do Kiss: enquanto poucos fãs vão fazer as contas e entender que trata-se de uma repaginação de produtos que eles já têm em casa, a maioria deles vai correr para garantir a sua, gozando da mesma empolgação que um fã do Merzbow tem quando consegue um obscuro trabalho de tiragem limitada. A verdade é que a grande massa que consome música esporadicamente necessita desse "empurrãozinho" da indústria, que é o que a marca faz com primor.
A pior parte é que esses músicos mais antigos sempre são maioria nessas listas de mais ouvidos ou 10+ que fazemos secretamente. Agora falando sério, estamos num beco sem saída ou como dizia Raul: "Atrás da curva do perigo existe alguma coisa bem mais nova e menos triste?"
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