Dying Days
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Discos do mês - Abril de 2014

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Abril de 2014

Beatles: Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band

Não costumo tomar parte na briguinha vinil X CD pois tenho minhas ligações afetivas com os dois formatos e compro discos de ambos os tipos indiscriminadamente, mas se fosse forçado a escolher um lado, eu escolheria o do vinil, e o faria sacando um argumento que me parece incontestável: Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Pra começar, a capa: o que o CD fez com a arte deste disco é crime contra a humanidade --- aquilo que aquela senhorinha italiana fez com o quadro lá, ao tentar restaurá-lo, não é nada perto disso. E tem o detalhe do fim do disco: o vinil termina, ou melhor, não termina de forma maravilhosa, genial (), enquanto o CD só termina, um fade-out sem graça que mutila a obra, outro crime grotesco. São detalhes que avultam ainda mais esse disco tão peculiar, ao qual dediquei umas boas horas de audição nessas últimas semanas. Confesso que nem é o meu preferido dos Beatles (por esse posto, álbum branco e Let It Be estão um pouco a frente), mas é inegavelmente um disco especial, riquíssimo de sons e idéias, um marco de uma banda que é ela própria um marco na história da música. Nem me ocorre nada muito original para acrescentar; deve haver farta literatura sobre o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band* por aí, já que é notório que as sessões de gravações deste disco --- mais de 700 horas --- foram épicas. Mas não poderia deixar de citá-lo aqui, ainda mais depois de ter citado os Stones mês passado...

(*) Na verdade, eu só sei que é assim, por já ter lido a respeito; a edição brasileira em vinil que tenho aqui não tem a famosa faixa final da multidão em repetição infinita.

Neil Young: Dead Man (Trilha-sonora)

A trilha-sonora do Neil Young para o filme Dead Man, dirigido por Jim Jarmusch, é daquelas que parecem provocar apenas reações extremas: ou se adora ou se odeia. Eu adoro. Ver o filme lembra muito aquelas sessões de cinema mudo --- e também o filme de Jarmusch é em preto-e-branco --- onde um pianista presente na sala onde ocorre a projeção vai criando a trilha-sonora ao vivo, ali na hora: a guitarra de Young é puro improviso ao longo das cenas da aventura do desafortunado contador vivido por Johnny Depp, personagem que compartilha seu nome com o grande poeta inglês William Blake. O filme é ótimo, todo onírico e recheado de simbolismos, a música de Young intensificando a surrealidade da narrativa a passos que variam entre o indeciso e o catártico, pontuada ainda por muitos silêncios e apenas alguns poucos trechos que parecem seguir alguma linha melódica reconhecível, linhas tênues que logo diluem-se, assim como dilui pouco a pouco o vínculo entre o William Blake americano, ferido de morte, com a vida terrena.

Nirvana: Blind Pig Beginnings (Bootleg)

O Nirvana, por tudo que representou, em todos os aspectos, já deve ter recebido todas as críticas e opiniões possíveis, indo de um extremo ao outro incontáveis vezes. Eu mesmo já devo ter escrito um punhado de coisas contraditórias umas com as outras nesses 15 anos de opiniões irrelevantes e monólogos amalucados neste site. Mas tendo ouvido recentemente alguns bootlegs dos primeiros anos da banda (tenho aqui gravações do período 1987-90, breve intervalo em que existiram como banda underground comum e não fenômeno pop internacional), reparei que nunca --- salvo engano de uma memória já meio cansada --- nunca escrevi nada sobre essa época em que Kurt, Krist e seja lá quem fosse o baterista da ocasião iam para seus shows em vans e notadamente ouviam muito Melvins e Black Flag, e sobre como funcionavam perfeitas ao vivo aquelas músicas pesadas e sisudas do primeiro LP, que já traziam sim as melodias redondas que Cobain tão facilmente compunha, isso é inegável, mas as proporções e tensões dos elementos ainda tendendo muito mais para aquilo que ouviam e com o que conviviam nos pequenos clubes de Seattle antes da cidade se transformar na menina dos olhos da MTV e de todos os públicos jovens mundo afora. Esse bootleg em particular, Blind Pig Beginnings, com a gravação de um show que aconteceu no dia 10 de abril de 1990 em Michigan (EUA), é fascinante. O Nevermind já devia estar em gestação, mas não há músicas dele aqui, tampouco há traços da estética sonora que piscava olhos lascivos para as possibilidades de vendas mais numerosas que iria aparecer nesse segundo LP --- acho que já escrevi sobre isso aqui, mas o próprio Butch Vig relatou que a orientação de Cobain era, sempre que este se encontrasse numa encruzilhada durante seu trabalho de produção, que Vig escolhesse então o caminho que mais rapidamente pudesse levar o Nirvana a um público mais amplo; a revelação está na biografia de Cobain escrita por Charles R. Cross, livro indispensável aos fãs da banda e do rock dos anos 90. Mas como eu dizia, o Nevermind não existia ainda e nesta gravação de 1990 só há sons do Bleach, b-sides e covers, e a despeito da qualidade da gravação apenas mediana, o show é hipnotizante, com versões extraordinárias de Floyd the Barber, Scoff e Big Cheese, que soam selvagens e pulsantes, o melhor resultado possível das habilidades e influências da banda, e Cobain cantando como talvez nenhum outro cantor de rock tenha jamais cantado, um misto prodigioso de total falta de qualquer senso de auto-preservação e irrestrito comprometimento com a responsabilidade que vem da compreensão de que um show de rock é, por menor que seja o número de pessoas envolvidas, um evento de certa forma sagrado. Não dá de negar os méritos do Nevermind, mas é tentador pensar que é aqui no Bleach e nos seus shows que está a melhor fase da banda, o Nirvana em sua forma mais pura e inspirada. Passado tanto tempo, acho que já dá de dizer isso publicamente, sem correr o risco de ser interpretado como aquele pessoal que gosta simplesmente de ser do contra (os que dizem preferir os Stones aos Beatles), ou aquela outra turma que deixa de gostar de uma banda assim que ela obtém algum sucesso comercial, etc... certo? Pois então eu o digo: é aqui mesmo.

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