Dying Days
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Discos do mês - Maio de 2014

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Maio de 2014

Jimi Hendrix: Studio Sessions Vol. 1 (Bootleg)

Há tempos fiz o download deste colosso de bootleg, Studio Sessions Vol. 1, e também o volume 2 arranjei pelas mesmas vias supostamente ilegais, e creio que não há problema algum em admitir a malandragem, afinal, sei lá eu onde adquirir um negócio desses, coisa que até faria com satisfação se tivesse oportunidade, mas o fato é que baixei sem pagar nada por eles os dois volumes e isso já faz alguns anos, nem lembro quando exatamente (diferente dos discos comprados em lojas --- ocasiões para mim tão especiais que não raro retenho na lembrança até mesmo detalhes do tipo a conversa trivial mantida com a pessoa que me cobrou no caixa da loja ---, os eventos dos downloads são totalmente desprovidos de qualquer individualidade ou textura de qualquer tipo mínima que seja e que se preserve em nossa memória; são só mais alguns megabytes trafegados de um lado para outro em meio à balbúrdia de sons e vídeos e imagens e conversas todas concentradas numa mesma tela plana, e que passou a fazer parte de nossas experiências diárias), e até poucos dias atrás eu não havia ainda escutado nenhum deles, perdidos que estavam ali na coleção digital que há muito já ultrapassou a marca de 4.000 discos. São dois álbuns de envergadura, seis discos cada, e que não somente pelas dimensões exigem disposições muito específicas para apreciação, mas também os tracklists são desafiadores: sequências enormes de uma mesma faixa tocada e repetida e novamente tocada e novamente repetida, longas jams delirantes, trechos cortados bruscamente, e tudo isso nem sempre na melhor das qualidades sonoras. Mas finalmente escutei o volume 1 e a jornada compensa plenamente, pois há muita coisa fantástica nessas muitas horas de um Jimi Hendrix na plenitude de suas forças e aparentemente tão à vontade em estúdios quanto ficava sobre o palco. Há uma versão de Angel gravada por Jimi em seu apartamento na mais despojada das técnicas e circunstâncias, e a música revela uma dimensão mágica que o tempo todo se infere de suas versões mais famosas, mas ainda assim ela emociona de maneira inédita e contagiante. O blues acústico Hear My Train A' Comin, depois de um começo incerto e entrecortado por conversas, irrompe sublime e assombroso, quase que uma aparição espectral de amplas conotações --- aquele que é afinal o grande efeito dos mais transcedentais dos blues americanos, e que Jimi aqui parece alcançar como quem coloca um chapéu ou ajeita uma gola de camisa, finalizando o take único com uma risadinha zombeteira de quem se sabe muito mestre de sua arte e vê pela enésima vez a prova disso no olhar embasbacado daqueles que o acompanhavam no estúdio naquele dia. Já Voodoo Child é uma dessas que se repetem várias vezes, mas cada uma soa melhor do que a outra, sempre original e indomável. Tem ainda um som chamado Calling All Devil's Children que eu nunca havia escutado antes, uma faixa instrumental em três versões todas igualmente fantásticas que me fazem reafirmar ainda mais enfaticamente o que eu já disse aqui antes: de todas as mortes prematuras da história da música --- e o rock, em particular, é riquíssimo em ocorrências desse tipo --- a mais trágica e lamentável de todas foi a de Jimi Hendrix, pois até onde este gênio poderia ter chegado, fossem-lhe dadas mais algumas décadas de vida, é simplesmente inimaginável. E há ainda neste volume 1 toda uma miríade de sons que se não se destacam individualmente, se destacam por fazer assomar vividamente diante de nossos olhos a figura sem igual de Jimi com sua guitarra, sempre uma performance hipnótica feita de movimentos mais naturais do que aqueles que qualquer outro músico já executou com seu instrumento. Tenho certeza que no volume 2 me aguardam outros tantos tesouros semelhantes.

Marilyn Manson: Antichrist Superstar

No meu modo de ver as coisas, o Marilyn Manson é resultado dos mesmos processos e demandas que resultam em Backstreet Boys, Spice Girls e [coloque aqui os nomes dos grandes ícones infanto-juvenis da atualidade; nas minhas últimas lembranças de ver alguma coisa das notícias deste mundo, esses dois que eu citei eram os nomes então em voga, mas suponho que nem existam mais]. Ele supre as necessidades de um mesmo tipo de público de uma mesma faixa etária, com a diferença apenas de ser a estética oposta, a deixar claro o não-pertencimento ao grupo majoritário apegado às belezas plastificadas, romancezinhos adolescentes e temas banais. Em resumo: tudo muita imagem e não necessariamente alguma música. Além, claro, da perfeita integração aos mecanismos engenhosos daquela terceira parte que financia e lucra bastante em cima deste grande circo de aparências. No geral, acho que é isso, mas é claro que o interesse no Manson pode se dar por outros caminhos também, como por exemplo, o gosto por música ruim --- meu caso. Lembro que a primeira vez em que eu ouvi falar de Manson foi lendo uma resenha desse disco Antichrist Superstar numa edição da revista Veja (vejam o tipo de coisa deplorável que eu confesso aqui...); fiquei curioso para ouvir aquilo, comprei o disco e gostei bastante, uma afeição nascida provavelmente das mesmas deformidades que fazem com que eu adore filmes de terror dos anos 80, por exemplo. A coisa é bastante tosca e vazia, um tanto primária em matéria de choque e de esquisitice, mas no fim das contas é bom que existam, mesmo nesse nível de ingenuidade, figuras como Manson, que se prestam a esse papel de outro lado da mesma moeda, pois para além de servirem como uma primeira forma de representação para a garotada que não se encaixa naquele perfil de saudáveis bons meninos e meninas que sonham seus pais, podem acabar também servindo de estímulo para estes irem mais a fundo e descobrirem que existe um vasto mundo de sons verdadeiramente diferentes, obscuros e instigantes por aí.

Inter Arma: Sky Burial

Mas falemos agora de música brutal de verdade: não me dediquei muito a ouvir esse disco quando ele saiu no ano passado, mas agora estou compensando o atraso enfileirando as muitas audições que ele merece. A fórmula é perfeita: os vocais que parecem berrar distantes lá de alguma dimensão extraviada do universo conhecido; as faixas instrumentais e os violões que dão aquele climão de misticismo e ruína; guitarras que parecem elevar a intensidade de tudo isso para um inconcebível patamar ainda acima, sempre que elas vêm para demolir tudo, e elas sempre vêm, inexoráveis como hão de ser as tormentas que precederão o apocalipse. O apocalipse é coisa muito séria, já me advertiu uma professora ruiva de inglês lá ainda nos primeiros anos do ensino primário --- certo dia, ela não ensinou os nomes das cores ou dos bichos em inglês, e deu as seguintes orientações para a classe: ao fim da aula, teríamos que ir embora e, ao chegar em casa, preparar muitos vidros de comida em conserva, e depois não sair de casa de jeito nenhum, pois a coisa ficaria bem feia do lado de fora. Na outra semana (já que esse Juízo Final ou seja lá o que seria acabou não acontecendo, para alívio de uns e decepção de outros) teve uma reunião com os pais dos alunos e a tia do inglês nunca mais foi vista, é claro. E com essa lembrança, acaba de me ocorrer que talvez essa professora tenha sua parcela de culpa por hoje, 25 anos depois, eu ouvir Marilyn Manson e Inter Arma. Quais serão e como se manifestam atualmente os traumas que ficaram no espírito dos agora adultos que eram então crianças e que estavam naquela inesquecível sala de aula comigo? Nunca me esquecerei do terror nos olhos da coleguinha que sentava do meu lado enquanto a transtornada professora, gaguejando e com enormes pingos de suor sobre as sardas de sua testa, dava detalhes do que estava para acontecer dali algumas horas... Bem, de minha parte, só posso dizer: obrigado, professora de inglês. Fanáticos religiosos são um saco, mas convenhamos que sem eles o mundo seria um pouco menos divertido.

Comentários:

Vicente | 06/06/2014

O Antichrist Superstar, despido dos fogos de artifício e do contexto de simbolizar uma falsa contra-cultura no ambiente mainstream (que tão bem ilustrasses) sobrevive como um bom disco de rock com o dedo pesado do Trent Reznor. O fator NIN é plenamente perceptível e creio que seja muito significativo para o sucesso comercial do álbum.

Fabricio Boppré | 07/06/2014

Vicente, creio que tens razão. Eu citei ali que gosto do disco simplesmente por causa do meu mau gosto, mas isso é mais uma gracinha; na real, o disco tem alguns méritos sim. Gosto muito de umas 3 ou 4 músicas ali. O problema é a estética geral da coisa toda, que aí sim, compreensivamente afasta qualquer espírito mais exigente.

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