Dying Days
Seu browser está com uso de JavaScript desativado. Algumas opções de navegação neste site não irão funcionar por conta disso.

Discos do mês - Junho de 2014

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Junho de 2014

Pink Floyd: The Division Bell

Nos bons e velhos tempos do colégio, uma das historinhas preferidas da turma que começava a conhecer bandas, copiar discos em fitas K7, ir ao cinema etc, sempre foi a da sincronia entre o The Dark Side of the Moon e o filme O Mágico de Oz (aquela outra sobre a sincronia entre a Echoes e o trecho da viagem de 2001: A Space Odyssey só veio depois, quando o interesse por essas histórias já começava a ser ofuscado por outros). Conversávamos sobre isso, naquela época, como se fosse um grande mistério, todos adicionando detalhes ouvidos da boca de sei lá quem que experimentou e descobriu também que tal cena e tal trecho do disco coincidem de modo que significa isso ou aquilo. Era sempre assim: uma malha de lendas e rumores frequentemente relembrados e expandidos por vozes em tons modulados de participantes de seitas, prontos para montar um altar feito de um toca-discos e um videocassete e iniciar um culto proibido. Apesar disso, o experimento ficava sempre para o dia seguinte e acabou que ninguém nunca deu esse passo fundamental, e a coisa ficou para sempre (e não se pode dizer que de forma totalmente não-intencional) no território da especulação enigmática, assim como aquelas histórias do copo que se mexia sozinho e fazia previsões e que eram sempre contadas pelas irmãs mais velhas dos amigos, que juravam solenemente, com um tiquinho mal disfarçado de excitação e temor na voz, que um ex-namorado de uma amiga de uma prima havia participado de uma sessão e morrido atropelado no dia seguinte. Sobre essas histórias do copo eu dava risada e fazia piadas (e provavelmente por isso as irmãs mais velhas dos meus amigos não gostavam de mim), mas a história do Pink Floyd me intrigava. Como dito acima, eu não cheguei a testar (e hoje sei que a coisa é bem forçada), mas por mim mesmo descobri uma outra sincronia muito mais sutil e fascinante, que é a do The Division Bell com um passeio matutino pela cidade num dia ensolarado, bem cedo. Eu a adoro, e a refiz algumas vezes nesses últimos dias, e ela funciona de modos sempre diferentes e imprevistos. Se for nesses dias de outono, de frio moderado, e que parecem brilhar mais intensamente, os resultados são ainda mais interessantes. Na verdade, este não é um grande disco; seria preciso muita boa vontade para se dizer isso. O Pink Floyd sem o Roger Waters é um Floyd mutilado, ou mesmo um outro conjunto. E nem se trata aqui de preferência pessoal pelo talento de Waters --- basta dizer que acho os discos solos de ambos os protagonistas, David Gilmour e Waters, muito fracos e desinteressantes. É inevitável utilizar o clichê aqui: a química que existia na banda completa e que foi quebrada em 1985 com a saída de Waters era, provavelmente, o que fazia do Floyd um grupo tão especial, e por isso os dois álbuns pós-Waters, o A Momentary Lapse of Reason (1987) e o The Division Bell (1994), e também o anterior, o The Final Cut (1983), que é praticamente um Floyd só com o Waters, é por causa da falta dessa química que eles são tão insuficientes. Diante de todo o espectro de maravilhas da obra anterior da banda, é impossível não admitir que faltam coisas nestes discos, assim como sobram outras, e eles ficam ali no meio do caminho entre meios e fins, entre afirmarem-se como discos do Pink Floyd ou de uma outra banda formada por ex-membros do Pink Floyd. Disso ressentem-se os fãs mais maníacos (e o Floyd os têm em elevadíssimo número); contudo, empregando-se pelo menos uma parcela da boa vontade citada acima, pode-se dizer também que o esforço que o trio empenhou neste último rendeu melhores resultados, e acho que a maioria dos fãs da banda concorda comigo neste aspecto. Mas há aí também uma questão de afeto particular influindo: o The Division Bell é um dos pilares da minha coleção, um dos meus cinco primeiros CDs, e eu o escutei muitas, incontáveis vezes, em tantos lugares e situações diferentes, de modo que ele está ali incontestável entre meus CDs mais queridos, ainda que eu reconheça seu valor relativo. Enfim: é por estas muitas lembranças particulares associadas, e também por esta incapacidade de capturar plenamente a atenção mas ainda assim afagar generosamente nossos espíritos com aquilo que é claramente o melhor que Gilmour, Mason e Wright poderiam nos oferecer como um último registro fonográfico desta venerável banda, é por tudo isso que pelo menos como uma espetacular trilha-sonora para um passeio esse disco funciona tão incrivelmente bem.

Earth: Angels of Darkness, Demons of Light I

A música desses últimos discos do Earth é muito propícia à loucas associações e divagações --- eu pelo menos não consigo evitá-las. Por exemplo: às vezes tenho a impressão de que ela parece progredir como um crepúsculo, luz desvanecente sobre a encosta de uma morro coberto de densa floresta, a copa das árvores recebendo a luz cada vez mais horizontal e dourada dos últimos raios de sol e o verde se aprofundando e escurecendo cada vez mais, até que finalmente temos um cenário indistinto do qual, no máximo, se entrevêem vultos ou formas obscuras. Mas a presença daquela colina, dali em diante, não nos é completamente inapreensível em toda sua amplidão; para além do conhecimento prévio de que ela permanece ali sob a escuridão, há uma intuição de sua presença, há a percepção de existência em um outro plano feito de ruídos e energia e solidez. Acho que a música do Earth é, afinal, sobre a paciente existência de todas essas coisas invisíveis; a tênue consciência dessas existências capturada e reordenada em música de andar vagaroso que parece o tempo todo prestes a capitular diante das forças mais intransigentes que incidem sobre nossos sentidos mais ordinários, mas que persiste e prossegue; montanha inabalável e sombria sob o manto da noite: uma presença imperturbável que prescinde de luz para ser percebida. E não lembro onde foi que eu li que uma montanha é, ao mesmo tempo, a coisa mais bela e mais monstruosa a existir na natureza (esse último aspecto, provavelmente, derivado das antigas lendas e mitos que punham os deuses e outros seres temidos a morar em montanhas, lendas, por sua vez, derivadas das primeiras visões de vulcões, tempestades em cumes distantes etc). Música perfeitamente redigida no livro das coisas possíveis, dada sua forma tão simples e básica, mas em cujas amplas entrelinhas estão inscritos alguns dos infinitos enredos sobre todas essas coisas ocultas da nossa percepção mais imediata.

Comentários:

si | 06/07/2014

Lembro que na resenha do TDB foi publicada na General o crítico (se não me engano o Forastieri) disse que o disco abria lindamente, e que no decorrer da primeira faixa ele havia realmente se empolgado com o álbum, mas que da segunda faixa em diante o Floyd colocou tudo a perder. Sou meio PF freak e tenho uma relação particular com esse álbum, foi o único deles que eu comprei na época de seu lançamento e eu já conhecia a obra do grupo, além de ser o meu último vinil comprado em uma loja. Uma coisa é certa, Cluster One é uma das mais singelas peças compostas pelo grupo, pra mim tão emocionante quando a última parte de Shine On.

Earth, que banda boa hein? Tenho uma dívida cultural muito grande com vocês do site. Tanta coisa boa eu conheci por aqui.

Voltando ao Floyd, e esse Endless River? Parece que o álbum não lançado de Ambient que o eles haviam preparado em 94 vai aparecer. Se tiver outra Cluster One nele já vale a pena.

Fabricio Boppré | 07/07/2014

O disco têm seus pontos altos, inegavelmente: Cluster One, Marooned, A Great Day for Freedom (adoro essa), Take It Back e High Hopes. Mas, como disco, não tem o corpo sólido e perfeito dos clássicos da banda, certo? Mesmo tendo também uma relação pessoal intensa com ele, isso pra mim é inegável.

Viu que ele vai ser (se já não foi) relançado, e a versão em vinil não será mutilada, como foi há 20 anos? Tô pensando em comprar.

Endless River? Não sei do que se trata... Vou me informar.

Sid Costa | 08/07/2014

Tô sabendo do Box e quando eu voltar a comprar vinil vou adquirir o LP duplo. A Great Day For Freedom é top 3 com Cluster one e Poles apart. As que eu não gosto mesmo é de Take it Back (uma tentativa infeliz em emular Learning to Fly, essa sim uma grande música), Lost for Words (Wish you were here) e Come Back to Life, que não faria feio num disco do A-ha ou da Cindy Lauper. Eu classificaria o TDB como clássico pessoal.

Fabricio Boppré | 23/07/2014

Sid: comprei o vinil novo do The Division Bell. É lindaço. Não vejo a hora de ouvi-lo (tô sem vitrola por perto, no momento). O box set é tentador, mas tá na casa dos 300,00 reais... Fica pra próxima encarnação.

(Não é mais possível adicionar comentários neste post.)