Discos do mês - Julho e agosto de 2014
Fabricio C. Boppré |Imagem principal:

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Talk Talk: Laughing Stock
O Talk Talk é paixão relativamente recente, apesar de ser banda já antiga. Quero dizer, não antiga tipo Beatles ou Rolling Stones, mas antiga tipo R.E.M. e Cure. Os dois primeiros álbuns que eles lançaram não são lá grandes coisas --- num deles tem até um hit oitentista que os aproximava de Duran Duran e a turma synthpop/new-wave, It's My Life, lembram? ---, mas no terceiro LP revelou-se subitamente uma banda verdadeiramente distinta, e depois disso, no quarto e no quinto e último disco, cada partícula de som gravada por esses ingleses é ímpar e sublime. A música do Talk Talk, depois dessa emancipação, parece prescindir de certas coisas às quais estamos todos, ou quase todos, tão acostumados: uma certa ordem, melodia, estrutura, e a possibilidade de rememorá-la. Neste maravilhoso Laughing Stock, por exemplo, o disco, quase que o tempo todo, apenas... segue. As faixas vão se construindo em cadências hipnóticas, os instrumentos tateando seus caminhos sem pressa alguma, e há uma desconfiança difusa de que você está sendo farejado por uma criatura libertina e incorpórea que pretende descobrir algo sobre você, e o que acaba por ser construído, muito rapidamente o ouvinte se dá conta, é intensamente comovente e move-se por amplitudes nas quais poucas músicas de aventuram. Há também uma certa qualidade de jazz nesses discos (principalmente em Laughing Stock), como se também eles bebessem da fonte do espírito de rebeldia e improviso, mas é possível até interpretar a coisa como ainda mais radical: enquanto eu consigo pelo menos assobiar muitos trechos dos discos mais clássicos de Coltrane, Mingus e Miles (tirando fora as experimentações avant-garde do Coltrane, naturalmente), a música do Talk Talk, por outro lado, parece não deixar muitos traços na memória após o fim do disco, em termos de melodias que podem ser transcritas em alguma linguagem, ou de refrões que podem ser cantarolados. Fora um trecho de guitarra aqui, um baixo encorpado acolá (nisso eles são aparentados ao jazz de forma mais explícita), o que mais persiste é a sensação de uma audição que se auto-consumiu lenta e totalmente em seu confinamento temporal, e o que nos resta após estarmos fora destas herméticas divisas é a lembrança de uma experiência sem existência fora de seus limites --- "uma noite fora do tempo", como eu li certa vez o Cortázar escrever sobre um show do Thelonious Monk --- que não quer se deixar contaminar ou misturar-se às coisas que são facilmente rememoráveis porque estas são banais, e portanto exige que você volte ao disco para experimentá-lo de novo, compreendê-lo de novo. É como se os fatores da equação da música do Talk Talk não fossem somente as notas, os instrumentos, a voz: é tudo isso e mais aquele instante único e irrecuperável de sua execução, passo-a-passo, segundo a segundo, livre e sereno, e a distância dessa música para a imensa maioria das outras é a mesma distância que existe entre a noção de tempo numerado e cronológico --- aquele controlado pelos nossos relógios e agendas --- e a estonteante noção de infinito. Ou seja, incomensurável.
Brian Eno & Harold Budd: Ambient 2: The Plateaux of Mirror & The Pearl
Eu estava ouvindo muito o Ambient 2: The Plateaux of Mirror, que é um disco fantástico, e daí fiquei curioso para saber mais sobre o Harold Budd. Dei uma pesquisada na discografia dele, anotei algumas coisas para procurar depois, mas descobri, sobretudo, que existe uma outra colaboração dele com o Brian Eno, e foi para este que parti direto. E The Pearl é tão bom quanto o Ambient 2: The Plateaux of Mirror, se não for melhor. É praticamente uma continuação: música que te faz afundar na poltrona, ou se estirar sobre a grama com as mãos entrelaçadas atrás da cabeça; é música que, na verdade, exigiria que eu fosse imensamente mais hábil com as palavras para dar conta de sua beleza, e nessas ocasiões em que eu esbarro em minhas limitações eu sempre lembro da frase mais simples e perfeita que eu já li sobre música, e que estava num texto do Baudelaire que nem era sobre música, era sobre um determinado pintor, e esse pintor, se eu não me engano, conhecia o Chopin, e daí, muito de passagem, o poeta francês descreve a música de seu conterrâneo assim: "um brilhante pássaro esvoaçando sobre os horrores de um abismo". Isso humilha qualquer um que tenta escrever sobre música, mas ao mesmo tempo dá uma alegria indescritível, não? Então, acho que para esses dois discos gravados em parceria pelo Brian Eno e pelo Harold Budd, eu teria que tirar da cartola algo desse nível, o que, vocês hão de me perdoar, não é possível, mas de uma forma ou de outra, quem ainda não os escutou, termina de ler esse textinho desconfiado de que deveria fazer isso imediatamente, e isso já é alguma coisa.
Ramones: Greatest Hits Live
Nos intervalos dessas músicas contemplativas todas, eu ouvi bastante Ramones. Não poderia ser nada intermediário, nada cujas intenções pudessem se esfarelar perto da beleza dos discos citados acima, então tinha que ser algo no outro pólo da música, aquele meio infantil, nostálgico, aquela música cujo barulho usávamos contra o mundo, Motörhead, Metallica, Guns N' Roses, coisas desse naipe... Mas, principalmente, os insubstituíveis Ramones. Os discos ao vivo dos Ramones são todos ótimos, mas esse tem a vantagem das duas bonus tracks de estúdio, dois covers, com destaque óbvio para a gravação da música que o Motörhead fez em homenagem aos... Ramones. É isso, os Ramones tocando uma música em homenagem a eles mesmos --- Joey até mesmo canta "Joey calls me on the phone" ---, e se houve na história da música uma banda que poderia tocar uma música em auto-homenagem, essa banda sem dúvida alguma foi o Ramones.
Comentários:
Música transcendental, diria algum neo-hippie, mas acho que nenhum deles escutaria esse Laughing Stock. O Jhonny Greenwood deve escutar vez ou outra. O tem coisas no combo Kid A/Amnesiac que soam como esse álbum, só que um pouco mais rápido. Ascension Day tem uma melodia vocal meio Blues ou é delírio meu?
Sid, os caras do Radiohead certamente ouviram muito Talk Talk. Os do Elbow também. Já vi uma porrada de gente boa citar o Mark Hollis como grande inspiração.
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