Dying Days
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Discos do mês - Janeiro de 2015

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Janeiro de 2015

Bad Religion - Stranger Than Fiction

Certa vez acompanhei um amigo ao centro da cidade para que ele comprasse o recém-lançado Stripped, dos Rolling Stones. Smiths, Cure, Stones e Ramones eram as quatro bandas que eu e esse amigo compartilhávamos o gosto, e fora isso, mais nada: ele gostava também da horrorosa dance music que tocava naquelas boates que fazia parte do ritual adolescente começar a frequentar aos 15 anos, e até hoje eu me pergunto como ele conseguia gostar ao mesmo tempo disso e de Ramones, a ponto de ter discos de ambas as coisas dividindo espaço nos porta-CDs que ficavam sobre sua escrivaninha, os discos de dance music sendo sempre coletâneas com títulos do tipo Dance Hits 94 e Hot Techno Hits 95 e capinhas genéricas multicoloridas. Mas tínhamos esses outros interesses em comum, e tínhamos também um acordo que previa compras e aluguéis coordenados dos álbuns destas quatro bandas (e a consequente gravação em fitas K7 para o outro daquilo que cada um adquiria/alugava), de modo a abranger a maior quantidade possível de discos diferentes, uma colaboração que nos ajudava a conhecer mais discos e aumentar nossas coleções de um jeito bem mais rápido do que se agíssemos sozinhos, com o pouco ou quase nenhum dinheiro que tínhamos nos tempos de colégio. Lembro de como, certa vez, no raro evento de termos nós dois conseguido economizar para comprar um disco cada ao mesmo tempo, fomos então juntos a uma loja do shopping perto de casa (vejam como tudo isso é velho: havia lojas de discos dentro dos shopping centers!) e eu comprei o Acid Eaters e ele comprou o Mondo Bizarro, na fase em que mais escutávamos Ramones. Mas naquela vez em que ele queria comprar o Stripped, eu não tinha muito dinheiro, e quando saí de casa, não sabia ainda se compraria algo, de modo que a ocasião acabou sendo uma das minhas primeiras lições sobre minha doença consumista de discos. Pois o que aconteceu foi o seguinte: fomos à loja que esse meu amigo queria ir --- uma loja que eu nunca tinha ido antes, numa parte da cidade que eu não conhecia direito --- e enquanto ele procurava pelo disco dos Stones, eu fiquei olhando uma outra prateleira onde os preços estavam todos em promoção. E lá encontrei o então mais recente lançamento do Bad Religion, Stranger Than Fiction, custando algo que eu podia pagar naquele momento. Eu ainda não havia escutado aquele disco, mas já era fã da banda: tinha deles uns três ou quatro outros CDs gravados, entre eles o Suffer, cuja encarnação em fita K7 era sempre transitória, já que o disco precisava ser regravado em uma nova fita religiosamente a cada semestre, de tanto que eu o escutava e deteriorava as fitas rapidamente. Resolvi então comprar o Bad Religion, negociando com o meu amigo que comprava o Stripped uma trégua no nosso acordo das quatro bandas, e fui para casa escutar o meu primeiro CD da banda. E foi paixão à primeira escutada; que disco maravilhoso é este! Reavaliando as velhas convicções, eu nunca cheguei a cogitar um preferido do Bad Religion que não o velho e querido Suffer, mas enquanto escutava novamente o Stranger Than Fiction uns dias atrás, me dei conta de que é este, na verdade, o meu preferido, algo que suponho já saber desde que o escutei pela primeira vez, mas era até então uma dessas compreensões que ficam limitadas àquela camada sub-consciente do pensamento, ainda não protocolada e oficializada pelas instâncias mais lúcidas e verbais. E, de um modo geral, acho que este álbum é o ponto culminante na discografia do Bad Religion, ainda mais se levarmos em conta que o anterior, o também muito bom Recipe for Hate, deixou à disposição da banda um caminho muito limpo e sedutor em direção ao sucesso comercial, caminho que a banda esnobou com muita fúria e convicção nas 17 faixas deste álbum seguinte. Dentre tantas pérolas de um ou dois minutos e pouco, tem a Tiny Voices, cuja letra eu me esforçava em memorizar pois pressentia ali uma lição de história bem mais útil do que aquelas aprendidas na escola, com todas as suas datas e nomes e eventos diligentemente copiados nos cadernos que depois do fim das aulas pouco prestavam para qualquer coisa, excetuando-se, claro, o fato de suas páginas finais servirem-me sempre muito bem para anotar tracklists de mixtapes, fitinhas que eu começava a planejar durante as aulas mais pra perto do fim do ano pensando já nas férias de verão na praia.

Mônica Salmaso - Corpo de Baile

Escutar um disco da Mônica Salmaso é sempre uma sessão de renovação do afeto pelo Brasil. Com a voz de Mônica e os belos arranjos dados ao variado repertório de canções brasileiras que compõem seus álbuns, vêm as mais vívidas visões de tudo que eu mais adoro neste pedaço tão maltratado do planeta: o mar sublime e magnânimo, os pores-do-sol mais deslumbrantes, a mistura de sons e cores e gentes que ainda há de ser o nosso principal legado ao mundo, e também o rico folclore descrito em livrinhos onde sempre havia aquele avô bonachão contador de histórias, e assistido com medo e deslumbre nas apresentações teatrais nas ruas de pedras da infância, e ainda a variedade sem fim de pássaros, e crianças brincando nas praças de bairros pequenos e tranquilos com pessoas a conversar em cadeiras junto às portas de casas sem quintal na frente, e tantas outras coisas simples e humildes que ainda conservam suas ligações com uma certa antiga visão de mundo que vai sendo cada vez mais suprimida por não ser de interesse deste novo homem, esta próxima etapa da espécie que de nada ao seu redor entende, nada cultiva com atenção, mas tudo consome, ávido e alienado. Sou extremamente limitado em termos de música brasileira, mas sei o mínimo suficiente para lamentar profundamente que tão pouca gente hoje em dia ainda ouça Cartola e Nelson Cavaquinho, e aparentemente um número menor ainda de pessoas conheça essa cantora magnífica... Enquanto isso, quando chega o fim do ano, é impossível atravessar essa época sem que ao menos sejamos lembrados do programa especial do Roberto Carlos na Globo, e olha que eu não assisto televisão. O Brasil tem um problema sério de memória e de apuração de referências culturais, algo que ainda vai nos custar muito até ser resolvido. Mônica deve possuir já seu pequeno séquito de cultuadores (ela lança discos com alguma frequência já desde 1998), mas ela merece muito mais: cada disco novo seu deveria ser um evento nacional, uma celebração do que há de melhor neste país, mas tanto não é nada disso que eu só fiquei sabendo deste seu trabalho mais recente uns dias atrás, tendo ele sido lançado já no ano passado. Daí eu vou lá investigar e descubro que sua página na Wikipedia não tem sequer uma discografia compilada, e a última notícia que consta lá é de 2010... Bom, chega de lamúrias; em resumo, é mais um disco lindíssimo, e eu acho que todos deveriam ouvi-lo por incontáveis motivos, mas se tiver que ser apenas por um, então que seja o fato de ele trazer uma música chamada Bolero de Satã.

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