Dying Days
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Melhores discos de 2025

Fabricio C. Boppré |
Melhores discos de 2025

Crédito(s): Pitagóricos celebrando o nascer do sol, de Fyodor Bronnikov, copiada daqui.

Se a memória não me falha, é inédito isso que temos na lista abaixo: dois discos de um mesmo artista. Só poderia ser de alguém que tenho em altíssima estima como é o caso de Steve Gunn. Não sei dizer qual dos dois é melhor: Music For Writers é mais na linha experimental-contemplativa que até então o guitarrista costumava gravar em companhia de parceiros como David Moore e John Truscinski; Daylight Daylight é o bom e velho Steve Gunn de preciosidades como The Unseen In Between e Nakama. Não é difícil gostar dos discos de Gunn, mas eu, particularmente, sinto que tenho uma relação bastante íntima com a música deste camarada, algo que me permito dizer de pouquíssimas outras bandas ou músicos. E, não obstante esta pequena apologia, acho que nem um e nem outro disco eu penduraria no lugar mais alto da minha lista de favoritos de 2025 se tivesse que ordená-la por preferência. Talvez o posto ficasse com o estupendo The Spin, do Messa, disco (e banda) que fui descobrir nos últimos dias do ano. Se você que me lê gosta de música pesada e não conhece o Messa, saia imediatamente daqui e vá escutá-los. Se lembrar de voltar para continuar a leitura, não é necessário agradecer-me, foi um prazer, amigo é para essas coisas... Outro que talvez merecesse o posto mais alto é o terceito volume disto que se parece uma série chamada Ghosted, sempre pelas hábeis mãos de Oren Ambarchi, Johan Berthling e Andreas Werliin. Faz alguns meses que, após muitos anos de resistência, eu comecei a fazer exercícios físicos em uma academia. Vou me aproximando dos 50 anos, tenho que ganhar musculatura, cuidar do cardiovacular etc. Como tenho medo de que aqueles aparelhos, como se fossem grandes escorpiões mecânicos, podem a qualquer momento me ferroar e devorar, costumo fazer com o auxílio de uma treinadora, porém ocorre às vezes de eu ter que fazer sozinho, e nessas ocasiões eu só consigo atravessar a sessão de exercícios com o auxílio dos fones de ouvido. Em Ghosted III descobri a companhia perfeita. A simplicidade dos sons, a repetição, as formas longas e a perfeita coordenação entre os instrumentistas gera o tipo de música que extrai a mente do ouvinte do local físico onde está seu corpo, como um mantra feito para a meditação — e exatamente o que preciso quando estou fazendo meus agachamentos, supinos e crucifixos. Lindo, lindo disco, que me desobriga de ouvir aquela horrenda, horrenda música da academia. Outro álbum que gostaria de mencionar é este do Chat Pile, banda que acompanho já há algum tempo. Hayden Pedigo, que os acompanha em In the Earth Again, eu não sei direito quem é, mas o resultado da parceria é muito bom e funciona de muitas maneiras imprevistas. E vejam quem voltou! Depois da ausência nos últimos três anos (depois de estar presente nos três anteriores), Patricia Kopatchinskaja reaparece com Exile, novamente uma espécie de colagem feita a partir da música de diversos compositores, tendo desta vez como eixo temático o exílio. A despeito da burlesca canção folclórica inicial, a jornada é grave e sombria. Não haveria como ser diferente: exilados são emigrantes, e emigrantes, de acordo com a retórica política fascista cada vez mais popularizada hoje em dia, não são bem vindos em lugar algum. Especialmente aqueles que não carregam consigo muito dinheiro: um emigrante pobre é menos do que um ser humano e é também o culpado por tudo, é o bode expiatório da história. Este é um assunto que me tira do sério. Não basta a desventura, a fome, a obliteração das raízes, o desamparo quase total; o exilado chega e ainda por cima acaba sendo tratado como escória. Na arena política, o cenário é desalentador. Como testemunho artístico, o trabalho de Kopatchinskaja é vital, se considerarmos que a cada ano que passa a esperança parece afunilar e se concentrar cada vez mais unicamente nisto: não perdermos a humanidade que nos resta. São meus votos para 2026.

  • Barbara Hannigan, Katia Labèque, Marielle Labèque & David Chalmin - Electric Fields
  • Chat Pile & Hayden Pedigo - In the Earth Again
  • Hooded Menace - Lachrymose Monuments Of Obscuration
  • Joona Toivanen Trio - Gravity
  • Kelly Moran – Don’t Trust Mirrors
  • Messa - The Spin
  • Oren Ambarchi, Johan Berthling & Andreas Werliin - Ghosted III
  • Paradise Lost - Ascension
  • Patricia Kopatchinskaja, Thomas Kaufmann & Camerata Bern - Exile
  • Sanguisugabogg - Hideous Aftermath
  • Steve Gunn - Daylight Daylight
  • Steve Gunn - Music For Writers
  • Vacuous - In His Blood
  • William Tyler - Time Indefinite

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