Aspernoteríleo
Fabricio C. Boppré |Imagem principal:

Crédito(s): Rio Sumida — Entardecer, de Hiroshi Yoshida, imagem copiada daqui.
Texto:
Lembrei-me, dia desses, de uma brincadeira que eu fazia quando criança. Pensando bem, não era exatamente uma brincadeira: estava mais para um exercício intelectual impúbere, o nascer da curiosidade com a vastidão do mundo e das gentes, um deslumbramento. Eu perguntava para mim mesmo: "será que existe alguém em algum lugar do mundo, neste exato momento, dizendo esta mesma palavra que irei dizer agora?", e então eu inventava e pronunciava em voz alta uma palavra maluca qualquer, que supunha existir em algum outro idioma. Zapuldeivester, empistaparquela, algo assim, em geral, com muitas sílabas. Pronunciava e ficava então fascinado com o que poderia significar caso a resposta fosse sim, havia alguém proferindo exatamente aquela mesma palavra naquele mesmo instante, talvez em algum lugar do outro lado do mundo, em um cenário varrido por ventanias e com uma cor diferente no céu... Esta velha lembrança veio-me à mente quando decidi comprar o Now and Zen do Robert Plant uns dias atrás: peguei o disco da estante de usados e levei-o ao caixa da loja, recordando o velho assombro infantil e formulando outro: "será que há alguém no mundo, neste exato instante, comprando o Now and Zen do Robert Plant?". Seria uma esquisitice bastante intrigante, eu conjecturava, coisa de um mundo que ainda guarda seus segredos, suas maneiras desconhecidas de dirigir a natureza... Mas no fim concluí que não, não haveria nada de especial nisto, e certamente mais chances de tal compra paralela acontecer do que alguém ter pronunciado, simultaneamente a mim, lá no tempo da infância, alguma daquelas palavras inventadas, inexistentes em qualquer idioma, salvo uma ou outra em alemão. Pois este Now and Zen não é um disco tão extravagante assim de se escutar hoje; sei de muitos outros que, como eu, sofrem de nostalgia oitentista, que curtem um hard rock radiofônico feito com capricho, sintetizadores, refrões de beleza luminosa e backing vocals harmônicos como os de Helen of Troy e Why. Há também no tracklist deste disco, como frequentemente ocorria nos velhos discos do Led Zeppelin, uma faixa de beleza meio mística, cadenciada, as cordas dedilhadas (aqui, Ship of Fools). Se me incomodam os truques de produção típicos daquela época, os samples e recortes inspirados no rap, as baterias cheias de ecos e sonoridade sintetizada, as guitarras derivadas do U2? Não, nem um pouco. Se desconsiderarmos os clássicos canonizados do Led Zeppelin e os mais recentes discos de sua carreira solo, já pertencentes à sua fase "sábio ancião", este é meu álbum favorito de Plant.
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