Discos do mês - Abril de 2026
Fabricio C. Boppré |Imagem principal:

Crédito(s): Enslaved em foto de autor desconhecido, copiada daqui.
Texto:
Se muito não me engano — pois estas já são coisas de um milênio passado — o Enslaved costumava ter seu nome escrito e pronunciado frequentemente ao lado de Emperor, Immortal, Satyricon e demais malucos originais do black metal norueguês, quando então a coisa era inflexivelmente radical e underground. Não me lembro de tê-los escutado em fins dos anos 90, quando passei a me interessar pelas margens mais extremas do metal e experimentei alguns dos discos desta súcia de depravados; se escutei ao Enslaved naquela época, eles aparentemente não se diferiram em nada de seus conterrâneos mais famosos e nada deles subsistiu em minha lembrança. Para falar a verdade, muito pouco mesmo destas outras bandas mais célebres subsistiu: o que elas tinham de mais marcante para mim eram títulos de álbuns apetitosos (In the Nightside Eclipse, Pure Holocaust, Transilvanian Hunger) e lindas artes gráficas que retratavam lobos, montanhas cobertas de neve e coisas do gênero. Corta para o presente: escuto ao disco E, lançado pelo Enslaved em 2017, e fico fascinado. Pesquiso e descubro: foi por volta da metade da primeira década do novo milênio que o Enslaved começou a se descolar da ortodoxia do black metal e passou a lançar álbuns mais variados e sofisticados, já tendo congregado, nesta sua fase madura, um séquito de fãs fiéis e o relativo respeito da crítica (e, evidentemente, o desprezo dos black metalêros mais intransigentes, o que é sempre um bom sinal). Escutei depois mais dois ou três dos álbuns mais recentes do Enslaved, todos excepcionais, e assim cá estou agora às voltas com mais uma generosa discografia para coletar e desvendar, sem saber de onde vou tirar tempo para isso. Não é fácil a vida do sujeito fissurado em metal! E não chega a ser tão vanguardista como os discos do Oranssi Pazuzu e do Blood Incantation (para citar duas outras bandas contemporâneas que andam empurrando as fronteiras da música pesada para cada vez mais longe), mas sua flexibilidade e riqueza sonora os coloca facilmente em outra categoria, se formos pensar nos modelos estreitos estabelecidos por Emperor, Immortal et caterva. Talvez você não me acredite, mas o Enslaved mescla com êxito e naturalidade seu black metal original com psicodelia, folk metal, rock progressivo, shoegaze — ou "blackgaze", se preferir — e provavelmente mais alguma outra coisa que me esqueço ou que minha limitada capacidade de reconhecer subgêneros falhou em esquadrinhar. É muito bonito e em vários momentos apoteótico. Então, passada a febre do Enslaved, resolvi apimentar um pouco minhas audições. Navegando pelas profundezas da minha lista de links com discos para ouvir no Bandcamp (a pasta onde salvo estes links possui no momento cerca de 7.400 itens, juro que é verdade), esbarrei com o primeiro disco do Coffin Mulch. Bastaram 15 segundos adentro na primeira faixa para me fazer lamentar o tempo que demorei para conhecer esta banda — e teria sido ainda menos do que 15 não fôsse a introdução dispensável. A matriz é manjada: o timbre distorcido das guitarras à moda Entombed faz a espinha gelar, o ritmo avassalador injeta deliciosas doses de euforia pelas veias. Incontáveis bandas seguem a cartilha sueca, mas o Coffin Mulch ganhou comigo uns pontinhos extras: quando entra o vocalista e ele começa a berrar como se estivesse em uma banda de hardcore, aí sim a coisa fica seriamente excelente. Pois é. Sou capaz de apreciar e ter pensamentos elevados ouvindo Mahler e Beethoven, de me perder na música hermética do Aphex Twin e do Autechre, de me comover escutando a voz de Mônica Salmaso e o violão de Baden Powell. Mas alegre mesmo, de verdade, nos últimos anos, eu fico é escutando heavy metal... Apesar disso, tento manter uma cota mensal de música que não seja metal, para não perder de todo o contato com o mundo real. Deixo então registrada aqui a audição deste bonito disco ao vivo de Neil Young, Coastal, trilha sonora de um documentário sobre sua turnê de 2023. De particular interesse para mim neste tracklist está a inclusão de três faixas do Mirror Ball, disco de 1995 que gosto muito e que traz o Pearl Jam como banda de apoio (embora esta informação não conste no encarte do álbum por conta de embaraços contratuais ou algo que o valha). De fato, os cinco discos lançados por Young na década de 90 são todos excepcionais; depois das tralhas lançadas nos anos 80, quando se dedicava a sabotar contratos e brigar com gravadoras, os anos 90 foram um renascimento e tanto. É uma pena que depois do ótimo Le Noise, de 2010, entrei em descompasso com o velho Neil... Nada do que escutei com alguma atenção depois daquele álbum conseguiu sustentar meu interesse em sua música atual. Mas é bom saber, mesmo assim, que Neil Young continua por aí, ativo e brigão, tendo trocado o alvo de suas escaramuças dos executivos das gravadores para o presidente grotesco dos EUA.
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