Dying Days
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Discos do mês - Agosto de 2026

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Agosto de 2026

Crédito(s): Chelsea Wolfe em foto de Nicolas Sandino Moreno, copiada daqui.

Não sei como é que vocês fazem para dar conta desta fartura de música que há pelo mundo. Confesso que fico, às vezes, um tanto agoniado. Nessas horas, lembro-me de entoar o mantra de um amigo — "que diferença fará daqui a 10 milhões de anos?" — e só então relaxo. Dito isto, tenho a relatar que em agosto resolvi duas faltas que vinham se pronlongando demais: as pouquíssimas horas dedicadas à música de duas bandas que adoro, Samael e Candlemass. Dia após dia outras audições se impunham; a vida e seus imprevistos iam me atropelando ("o homem planeja e Deus ri"), me desfalcando diariamente das horas que eu gostaria de poder ficar em paz, feliz e sossegado ouvindo meu heavy metalzinho; por fim, chega a noite e, por volta das 22h, eu me sinto aniquilado, sem disposição para muita coisa que exija estar acordado. E foi assim nesta toada desgovernada que o Samael e o Candlemass foram ficando desgraçadamente para trás, perdidos na lembrança de audições muito antigas. Até o mês passado. Pois no começo de agosto os astros se alinharam e voltei a tirar da estante, finalmente, o Epicus Doomicus Metallicus dos suecos do Candlemass. Essa banda praticamente se confunde com a definição de doom, enquanto que a este disco nem precisamos ajuntar rótulos e adjetivos — eles já vêm todos convenientemente no próprio título. Começando de forma inesquecível com Solitude e terminando arrebatadoramente com A Sorcerer's Pledge, o primeiro álbum do Candlemass é da matéria da qual são feitos os mitos e as lendas. Da discografia do Samael talvez não se possa dizer algo tão grandiloquente assim, mas ela tampouco autoriza dizer que é uma banda como outra qualquer. Ceremony of Opposites, de linda e icônica capa, foi um dos discos que nos anos 90 começou a separar o joio do trigo, quero dizer, a distinguir as bandas advindas do ominoso mundo do black metal (subgênero até então mais associado com homicídios e igrejas queimadas) e trazer à luz aquelas que de fato tinham alguma coisa interessante para nos oferecer. Samael, Gathering, Tiamat, Rotting Christ, Ulver... a porteira estava aberta. Cada uma com sua contribuição particular, cabendo ao Samael, a partir do Passages, de 1996, a missão de injetar música industrial na veia do black metal. Relato ainda que nos últimos dias do mês passei algumas divertidas horas com o Testimony of the Ancients do Pestilence, essa banda de nome tão meigo. É o terceiro disco destes holandeses e o primeiro a sugerir que também eles não ficariam para sempre confinados nos limites rígidos de seu subgênero original, no caso, o death metal. Sintetizadores, riffs tortuosos e atmosfera tétrica dão o tom desta viagem cavernosa memorável. E para finalizar com algo mais recente: uma avalanche de promissores novos discos começou a desabar sobre nós em fins de agosto e seguirá ao longo de setembro — Test, Static Abyss, Mastodon, Emma Ruth Rundle, Sarah Davachi, Chat Pile, Devil Master, Sleep e Black Pantera são alguns dos nomes que anotei. E embora sejam estas todas bandas e artistas que adoro, parece-me improvável que alguma delas lance um álbum que eu vá preferir ao primeiro que escutei da fornada, The Dark, da Chelsea Wolfe. Mas que álbum muito bonito. Confesso que os discos de Chelsea me parecem, algumas vezes, flutuar a soldo de circunstâncias externas à sua voz artística, que acaba soterrada ou estrangulada pela produção. Tal coisa não ocorre em The Dark. Aqui talvez tenhamos o melhor e mais verdadeiro de Chelsea Wolfe, uma espécie de folk assombrado cujos adornos (ora elétricos, ora eletrônicos, ora até mesmo orquestrais) não interferem na essência. Sua identidade sobressai-se sem esforço; escutamos a artista aprendendo a conviver com suas angústias e perplexidades, usando das táticas e armas de que dispõe para pelo menos distrair temporariamente um inimigo invencível. Chelsea não é a primeira a transformar dor e tristeza em grande arte, mas no mundo da música contemporânea, daqui de onde vejo e escuto — e mesmo que com seus altos e baixos — ela é de longe a melhor.

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