Dying Days
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Discos do mês - Janeiro de 2026

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Janeiro de 2026

Crédito(s): foto de Caterina Di Perri, copiada daqui.

Eu acompanho alguns blogs de resenhas e (não contem para ninguém) downloads de discos, sites nos quais, lá pelo meio de janeiro, deparei-me com uma sequência de postagens sobre Ralph Towner e sua banda Oregon, sem desconfiar de nada, cogitando distraidamente que talvez fossem sinais de um entusiasmo renovado com a música gentil de Towner, algo que se alastrou de um site para outro, como se fosse contagioso. Um destes esporádicos sinais de um mundo um pouco melhor. Foi apenas dois ou três dias depois que entendi o verdadeiro motivo, ao ler sobre o falecimento de Towner neste site. Creio não ter muito a acrescentar ao que já escrevi aqui sobre a música deste mestre que nos deixa. Talvez isto: muito provavelmente por conta de sua participação é que gosto bastante do Oregon, banda cuja música se aproxima bastante daquilo que as pessoas costumam chamar de fusion, o notável disso sendo o fato de que eu acho fusion uma tremenda chatice. Mas dos discos do Oregon que escutei eu gostei de todos; eu percebo o que eles tinham de fusion (ou, pior, de "world music", como também já li por aí), mas há também uma sabedoria na música da banda, algo ao mesmo tempo erudito e popular, e, sobretudo, há leveza e delicadeza1. Eu apostaria que era o espírito de Towner quem prevalecia nas composições do Oregon. Em tributo à Ralph Towner — e aproveitando os links para downloads mencionados acima — eu escutei a um de seus discos solo lançado pela ECM que eu ainda não conhecia, Time Line, de 2006. São 16 pequenas ruminações acústicas, entrecortadas por silêncios e hesitações, desprovidas de virtuosismos e vaidade. O artista some, a música é como um som elemental que vem do próprio fluir do tempo. É lindo e emocionante. E assim mais um dos grandes se despede nos deixando desamparados na cacofonia do caos... De resto, minhas tentativas de ouvir menos metal não têm sido lá muito bem sucedidas. Ocorre que o metal abafa melhor a tal cacofonia, o ruído estridente das notícias. O metal não deixa frestas. Melhor ainda quando aparenta ser obra de adultos razoáveis... Já escrevi por aqui diversas vezes sobre o meu ressentimento com o reacionarismo e os chauvinismos (e não raro coisas piores) que infestam o gênero e desta vez não repetirei o queixume; desta vez saudarei as bandas que andei escutando nos últimos dias e que vão na contramão destes bolores mentais, as bandas que são as gloriosas exceções. Começando pelo Kreator, que não me canso de incensar por conta de sua postura política, sua coragem de dar voz aos povos explorados deste mundo, além, claro, de seu thrash intenso e furioso. Estes alemães arrombaram as portas de 2026 com Krushers Of The World, disco que comprova que envelhecer está fazendo muito bem a eles. Passo aos franceses do Gojira, que vagamente me recordo de ter escutado anos atrás e não me atraído; recentemente, no entanto, voltei a escutá-los e desta vez tornei-me fã entusiasmado. O que talvez tenha me desinteressado antes tenha sido o tom e alguns cacoetes de guitarra que remetem ao new metal, mas isso são ninharias; a audição atenta dos álbuns do grupo revela algo muito maior, cheio de melodia e profundidade, além da audácia de incluir cantos de pássaros e uivos de baleias em suas faixas, e, principalmente, a audácia de fazer de sua música um apelo pela preservação da natureza. Há Metallicas demais por aí, Gojiras de menos. Finalizo com o Messa, esta fantástica banda que descobri em fins do ano passado. Embora estes italianos não cantem sobre a emergência climática ou contra o capitalismo que devasta corpos e biomas, sua música é inequivocamente obra de adultos: a riqueza instrumental de Close, o terceiro álbum do Messa (lançado em 2022), revela uma banda de horizontes amplos, que vai longe em busca de sua inspiração, que se arrisca, que habita um mundo complexo e multifacetado e o espelha em sua arte. Não há vozes tentando soar como monstros intergaláticos, não há temática necrológica, nada disso; é metal para quem gosta de música pesada e já deixou a infância e a adolescência para trás faz tempo.


1: Li também em algum outro lugar que costuma-se considerar o Oregon um dos progenitores da música New Age, isto dito em um tom constrangido de demérito da banda, ou efeito colateral indesejado de uma carreira que seria de resto impecável. A linhagem faz sentido; do entendimento disto como um demérito eu evidentemente discordo, estando eu na minoria da minoria que adora os sons da New Age...

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