Discos do mês - Julho de 2026
Fabricio C. Boppré |Imagem principal:

Crédito(s): foto minha, registrada em algum lugar entre Cusco e Puno, no Peru.
Texto:
Estive viajando durante boa parte do mês de julho, o que não significa que tenha escutado pouca música neste período, pelo contrário: uma das minhas ocasiões favoritas para enfiar os fones de ouvido é justamente estar em trânsito, em translado de um lugar para outro, assistindo a novas e estrangeiras paisagens deslizando pela janela. E foram muitas as vans, os ônibus e os aviões ao longo de duas semanas: muitas foram as janelas pelas quais observei pessoas, construções, vilarejos, montanhas, cães vagabundos, a estética geral de outros modos de viver, tudo ampliado e ressignificado pela música que eu carregava comigo. É inevitável, no entanto, que nestas ocasiões a mente dedique-se menos a elaborar ideias sobre a música sendo escutada, uma vez que a paisagem tende a ocupar quase que todo o espaço cognitivo e as anotações mentais nascem mais daquilo que é visto do que é escutado. À música, na maior parte das vezes, resta o papel de complemento de luxo à experiência do viajante/observador. A verdade, enfim, é que não tenho muito o que escrever sobre a música escutada em julho. Mesmo antes da partida o tempo vinha sendo empregado majoritariamente na preparação da viagem e na maratona para finalizar as tarefas pessoais e profissionais que precisavam ser finalizadas. Mas lembro-me que nos dias corridos que antecederam a viagem ocorreu-me finalmente escutar com alguma atenção ao Dead Moon, essa banda de ares cult que algumas poucas pessoas idolatram — poucas, mas em geral pessoas que importam, importam muito. É como se o Dead Moon fosse o Sam Fuller do rock 'n' roll. Escutei ao disco Stranded in the Mystery Zone e adorei! Mais um nome anotado em minha extensa lista de bandas para procurar por todos os discos e conhecer a fundo. Lembro-me também de escutar, depois de eras, o Skid Row, que inicialmente apareceu-me em uma playlist que mantenho de canções notáveis da minha infância, uma playlist para sessões de nostalgia, digamos assim. In a Darkened Room brilhou entre as outras faixas desta coleção, que interrompi para escutar Slave to the Grind, disco de 1991 que traz este e alguns dos outros hits do Skid Row que vieram na esteira do sucesso do Guns n' Roses. Não é música que esteja envelhecendo lá muito elegantemente, mas isto não é e nunca foi um problema para mim. Lembrei-me então que o episódio do Sebastian Bach (cantor do Skid Row) na série What's in my bag é ótimo e resolvi assisti-lo de novo. E então, o erro: pesquisei sobre o que anda fazendo Bach e topei com notícias como esta. (Mas também descobri, com bastante surpresa, que ele detesta o crápula boquirroto que preside seu país, assim como, ainda mais surpreendente, acabei descobrindo que também Axl Rose detesta o sujeito... No fim das contas, após cálculo escrupuloso, decidi que posso voltar a escutar Skid Row qualquer hora destas, sem muitos constrangimentos, quando bater forte a nostalgia.) Por fim, pelo menos um disco escutado durante a viagem eu posso mencionar: o deslumbrante Harmony in Ultraviolet de Tim Hecker. Posso mencionar pois ele é tão deslumbrante quanto a paisagem andina pela qual o ônibus em que eu estava serpenteava. Ambos — disco e paisagem — têm essa qualidade de mistério, de estarem inalcançáveis em seus saberes, seus segredos. A música de Hecker é borrada, árida, tendendo ao escuro, de pouca cintilação; a Cordilheira dos Andes esmaga o observador com suas eras geológicas em fileiras verticais sem fim. Naquele dia eu não soube dizer se era a música que complementava a paisagem que eu observava ou se era a paisagem que complementava a música.
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