Dying Days
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Discos do mês - Setembro de 2026

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Setembro de 2026

Crédito(s): Black Pantera em foto de Hugo Brito, copiada daqui.

São dois os motivos que me fizeram, nas últimas semanas, enveredar profundamente pelo mundo do crust/punk/hardcore/grindcore: primeiro, o fato de que este tipo de música, com seus extremos de selvageria sônica e caos apocalíptico, tem me ajudado a abafar o ruído vindo do mundo externo, principalmente as notícias sobre as eleições, a insanidade grotesca de um país que cogita seriamente eleger presidente um corrupto insignificante e abjeto cuja fama vem inteiramente do fato de ser filho de um golpista assassino. (Eu deveria ter percebido o olhar pasmado e a voz ensaiada das pessoas que me diziam, nos últimos anos, que tudo ia bem, que o pesadelo acabara.) Segundo: a consolação nascida do fato de que, nestas veredas da música extrema — e ao contrário do reacionarismo predominante no mundo do metal — prevalecem artistas politicamente conscientes e revoltos. Revoltos, ressalte-se, pelos motivos certos: autoritarismo, racismo, desigualdade social, big techs (antigamente eram as "multinacionais", os logotipos de algumas delas estampados na capa do primeiro disco do Napalm Death), guerra, genocídio e demais tragédias decorrentes da dinâmica capitalista neoliberal, que posa de superior moral enquanto financia a limpeza étnica em Gaza, para citar apenas um exemplo contemporâneo. E não são poucas as bandas que vão além e usam sua música como veículo para causas veganas, feministas e demais bandeiras que costumam disseminar pânico entre os cidadãos de bem. Prevalecem também, nestas vertentes da música extrema, os anarquistas, mas com este ideal já não posso dizer que nutro simpatias, pois para mim o anarquismo é uma espécie de irmão sujinho do próprio neoliberalismo: ambos ideias muito bonitas e justas no papel e totalmente inviáveis na prática. Mas isso é outra conversa. Fato é que em setembro danificaram severamente meus ouvidos os discos de bandas como Napalm Death, Totalitär, Facada, Rot, Ratos de Porão, Black Pantera (sem perfil no Bandcamp, infelizmente), Cripple Bastards e Dropdead. Bastam as imagens que estes nomes invocam, mesmo que você nunca tenha escutado seus álbuns, para descrever o tipo de música que fazem... Mas mantenho este blog para falar de sonzêra, então saudemos a existência desta banda monumental chamada Napalm Death, uma das inauguradoras da possibilidade da arte sonora radical como forma de mobilizar atenção em prol de minorias e populações desassistidas. Precursora também desta forma brutal de punk rock, metalizado, que originou um ou dois subgêneros e incontáveis bandas. O Napalm Death mantém o alto nível de seus lançamentos desde o primeiríssimo álbum, o clássico Scum de 1987, mas deste século sinistro que atravessamos talvez meu favorito seja o Time Waits for No Slave, de 2009. Vida longa ao Napalm Death! Matéria para muitos outros discos aparentemente não vai faltar, assim como não faltará para uma banda aqui da nossa quebrada sul-americana, o Ratos de Porão. Desde antes do Napalm Death (embora influenciados por eles a partir dos anos 90) nossos Ratos favoritos já faziam barulho contra uma sociedade que denunciavam como putrefata, mas será que estes arruaceiros da periferia paulista prognosticaram que o fascismo voltaria para nos assombrar, revivido pelo casamento de conveniência com o tecnocapitalismo e pela nostalgia da barbárie? Penso que não; este fenômeno assustador é da natureza humana, egocêntrica e facilmente ludibriável, coisa deste nosso mundão véio que dá um passo para frente e dois para trás, e assim seguimos aos trancos e barrancos, deixando uma trilha de ruínas e devastação, crentes na renovação eterna da luz no fim do túnel. (Ademais, um escritor nos alertara: o fascismo é uma cadela que está sempre no cio.) Fato é que o Ratos continua pertinente em 2026 e continuará pelos próximos anos, João Gordo transformando-se em pilar moral de um país que vai abrindo mão de seus brios e pudores mais básicos, de sua cultura e sua terra, entregando tudo enquanto acomoda-se preguiçosamente no mundo atoleimado da internet. Para finalizar, enfiei ouvidos adentro muito Black Pantera, em especial este seu mais recente disco, Continental. Talvez, sonoramente, a música mais suave que escutei nestes últimos dias; possivelmente a mais relevante. Continental é urgente, afiado, por vezes furioso, uma mistura fervilhante de resistência combativa e conhecimento, a ponto de misturar em uma mesma faixa "hijo de la puta, nós não vamos pagar pau" com a voz gravada de Milton Santos. Traz ainda participações exóticas e sensacionais de Chico César e Sandra Sá e figura, desde a primeira audição, na minha lista dos melhores discos do ano.

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